ROMANCE FILOSÓFICO: SCHOPENHAUER NO BRASIL (PARTE III)

By Acervo Filosófico

Por: Antonio Alves

Sim! Ele fez exatamente como no Parerga e Paralipomena, Livro 1, §98!

O bicho me perseguiu por meia quadra. Subi num portão. Ele latia ferozmente em minha direção como se reivindicasse e perguntasse: “Por que me segues?”. Falei baixinho, temendo que alguém pudesse me ouvir.

— Schopenhauer?… É você…?

Ele não dava ouvidos, continuava a latir e a mostrar os dentes. Gritei, tentando inibi-lo e fazê-lo sair dali. Não adiantou, estava fixado em mim. Não demorou muito apareceram alguns moleques que me socorreram. Eles gritaram e o ameaçaram. Acanhado, o cão se assustou com a numerosidade do bando e saiu. Agradeci-lhes com um aceno cortês e continuei minha perseguição. Agora ele não parecia mais tão agitado. Sua língua estava para fora, parecia sedento. Comprei uma garrafinha de água mineral num botequinho perdido por aquelas bandas. Esforcei-me, venci o medo, decidido e determinado, chamei-o:

— Cão… (assobiei), venha. Cãozinho… (estralei os dedos várias vezes).

Agora, relembrando-me do episódio, pergunto-me por que diabos estralamos os dedos e assobiamos para falar com os cães? Não sei, mas importa que funcionou. Educadamente ofereci-lhe a água.

Diferente da outra vez, agora o bicho até abanou o seu termômetro, digo, o seu rabo, sim, ele estava contente. Pensei que pudesse ter um temperamento bipolar, já que um instante atrás queria me morder, bem, talvez até tivesse, quem iria saber? Abri a garrafinha d’água da qual ele não tirava os olhos e a joguei em um buraco na rua. Ele lambeu rápido e depois me olhou. Gelei, mas ele não disse nada.

— Não tem uma casa? Mora na rua?

Perguntei tentando iniciar uma conversa, mas ele não deu nenhuma resposta. Só pude ouvir sua respiração ofegante, mas estava tenso e temeroso, pois ao mesmo tempo queria e não queria ouvi-lo falar de novo. Pensei em levá-lo para casa, talvez pudesse morar comigo e fazer-me companhia. Quem sabe podia cuidar da casa quando eu me ausentasse? Enfim, quem sabe pudesse até falar novamente.

— Você tem uma casa? Tem um dono?

Tentei de novo puxar prosa. Novamente sem sucesso, mas dessa vez, já com a vontade de beber água saciada, o bicho me olhava e virava a cabeça de um lado para outro. Parecia inteligente, esforçava-se para entender o que eu dizia. Lembrei-me de Parerga e Paralipomena, livro 1, § 98, que diz alguma coisa como “os cães bem inteligentes reconhecem uma parte do que os homens falam, viram a cabeça de um lado para o outro quando se esforçam para interpretar o sentido das palavras de seu senhor”. Fiquei surpreso. Poderia ser um sinal cosmológico? Para mim não era muito difícil crer nisso, principalmente em vista do fato de que considero o universo demasiadamente mental. Sabe-se lá se ali dentro do cão-Schopenhauer não havia de fato o resquício consciente de um Arthur que quisesse se comunicar me fazendo lembrar justamente do § 98. É uma hipótese, uma premissa sem conclusão que, no entanto, para mim, é fácil concluir como verdadeira; mas é claro, sei que não é coisa fácil de se dizer em qualquer lugar, por isso confio a informação apenas aqui, digo, aqui no papel.

Pensei: tantos lugares no mundo, e eu vivo justamente nesse?

Eis o que tomei como verdade inquestionável: dentro daquele cão havia um Arthur Schopenhauer consciente até mesmo do fato de que havia transmigrado. Não como um deus que se orgulhasse por ser diferente, por ter enfim dado jeito de roer o véu de Maia ou por ter aniquilado o embate entre o fenômeno e o transcendental. Digo isso porque tudo o que o bicho me disse, palavras estas que não param de se repetir dentro de minha mente, com certeza hão de confirmar minha tese… “sou Schopenhauer e estou preso aqui dentro, liberte-me!”. Um cão não diria isso se não fosse verdade, tenho fé. Fé? E desde quando fé é uma validade argumentativa? Não importa, tenho fé. 

Depois de beber a água e de tentar entender palavras, ele me seguiu. Não entendi exatamente por que em nosso último contato ele se fez tão hostil apenas por segui-lo, pensei que pudesse talvez oscilar entre a consciência de puro cão e a consciência de puro Schopenhauer. Quando o cão-bicho, puro instinto e estimulado pelas impressões do presente, aparecia, o cão-Schopenhauer saía de cena, e quando o cão-Schopenhauer, filósofo da solitude aparecia, o cão-bicho saía de cena.

Voltamos pelo mesmo caminho em que eu o persegui. E eis assim as ruas do Brasil: bêbados, loucos e putas dispersos e aglomerados pelas avenidas. Cheiro forte saindo dos bueiros, uma mistura de odor de xixi com fumaça de caminhão que, apesar de ser desagradável, é também um tanto romântico. Pensei: tantos lugares no mundo, e eu vivo justamente nesse? Mas logo fui assolado pela resolução: onde quer que eu vivesse, pensaria exatamente nisso. Por essa razão, há de se florescer onde se está plantado. Aquele era apenas mais um simples início de madrugada de uma quinta-feira, e por isso lembrei-me do meu pai, aliás, como acontece toda quinta-feira. Isso porque ele dizia que quintas-feiras eram os dias mais especiais da semana. Nunca entendi bem o motivo, mas sempre aceitei sem relutância e sem questionamento, algo por sinal bem estranho para meu jeito de ser. Perguntei ao cão:

— Posso te chamar de Schopenhauer?

Ele me olhou, novamente não disse nada, apenas virou a cabeça como da última vez… E como era bonitinho vê-lo fazer aquilo. Parecia ter entendido que o que eu dizia era bom, por isso continuava a escolher me seguir.

Mas não durou muito, pois quando passávamos mais uma vez perto do bar, o bicho saiu numa descontrolada disparada e roubou mais um espeto de uma outra pessoa.

Sem demora, o homem começou a correr atrás do cão-Schopenhauer. Eu fiquei paralisado. Não me sentia amigo suficiente a ponto de intervir em problemas criados por ele mesmo. Não o sentia como “meu”, ainda que já estivesse agarrado à convicção de que a partir daquele dia ele moraria comigo, porém, em vista da sua habilidade em roubar espetos de velhotes bêbados, não sabia se precisava mesmo de um lar. Mas isso pouco importa, ele não era como qualquer outro cão. Era um cão a ser estudado, um cão que falava.

Também a partir desse momento passei a me questionar o que significaria ter um cão. “Meu cão…”. E por acaso alguém pode ser de alguém neste mundo? Senti-me mal de pensar nisso, mas não pude evitar. Segui em frente e, enquanto isso, o velhote esbravejava raivosamente: 

— Cachorro lazarento, morfético! Vou te matar!

Os outros homens no bar riam como loucos. Percebi que já era conhecida a sua fama de ladrão. Era o melhor dos ladrões de espeto, talvez ele até se orgulhasse disso, já que roubou com tamanha facilidade.

A coisa incomum foi perceber que desta vez ele não comeu a carne, mas deixou-a nos pés dos outros cachorros. “Ora, ora… muito estranho, cães podem sentir compaixão?”, pensei.

Por um instante, tive a impressão de que o cão-Schopenhauer era uma espécie de super-herói canino, um provedor da paz social canina, um defensor da ética animal. Não tardou, veio logo o Zé das Tralhas aos chutes e gritos. Os cães todos se dispersaram para diferentes cantos. Dessa vez, Schopenhauer não fugiu para a mesma direção, mas sim correu para dentro da Igreja. Eu fui atrás decidido a levá-lo comigo, ainda que relutasse em continuar vivendo tantas emoções em um simples início de noite de quinta-feira.

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