SCHOPENHAUER, WAGNER E NIETZSCHE – Afetos e desafetos:

By Acervo Filosófico

Por Juliana Vannucchi

SCHOPENHAUER, WAGNER E NIETZSCHE – Afetos e desafetos: Arthur Schopenhauer, Richard Wagner e Friedrich Nietzsche. Essas três grandes personalidades deixaram ao mundo uma herança valiosa, e não importa quanto tempo se passe, as mentes dessas figuras ainda fascinam muitas pessoas. Schopenhauer influenciou Wagner e Nietzsche; estes dois, por sua vez, foram amigos por um certo período de tempo, até que Nietzsche rompeu com a influência de Arthur Schopenhauer e também distanciou de seu companheiro Richard Wagner. Afinal de contas, Friedrich era assim: um combativo, um pensador que desmoronava seus próprios ídolos, na tentativa de se autosuperar e de poder estar além dessas personalidades que um dia o inspiraram. O texto abaixo procura apresentar alguns traços dos pensamentos e do legado desses três alemães, e algumas característica que os  ligaram e que também os afastaram.

SCHOPENHAUER – Alguns conceitos introdutórios do gênio que inspirou outros gênios:

Arthur Schopenhauer nasceu em Danzig, no ano de 1788 e faleceu em 1860, na cidade de Frankfurt. Sua filosofia centra-se no tema de sua obra magma, chamada “O Mundo Como Vontade e Representação”. Este título já ilustra em si, uma síntese da abordagem de tal livro, no qual Schopenhauer interpreta que o nosso mundo é sustentado por dois elementos básicos, que são a Vontade e a representação. A Vontade é a raiz metafísica do mundo, e diz respeito à essência da natureza mundana. Pode ser compreendida como uma força determinante que acorrenta os seres em suas ações, fazendo deles seus escravos. Ela não cessa, e nunca é totalmente satisfeita, tornando-se, portanto, a fonte do sofrimento humano, uma vez que o homem se prende a ela na tentativa de suprimi-la. A Vontade é indestrutível e essa dor que ela gera, é inevitável. Conforme o filósofo proferiu: “Querer é essencialmente sofrer, e como o viver é querer, toda a existência é essencialmente dor”. 

Além de estar sempre inserido nessa dependência involuntária da Vontade, o ser humano encontra-se num mundo de ilusões que, de acordo com Schopenhauer, “mascara a realidade una”. Para o pensador, tudo aquilo que se mostra a nós no mundo sensível, é unicamente uma miragem fenomenológica. Ou seja, a maneira como interpretamos o mundo, trata-se somente de uma representação meramente subjetiva. Conforme ele escreveu em seu principal livro: “o mundo é minha representação”. Vejamos outra passagem que resume bem este pensamento: “O mundo como representação, isto é; unicamente do ponto de vista de que o consideramos aqui, tem duas metades essenciais, necessárias e inseparáveis. Uma é o objeto; suas formas são o espaço e o tempo, donde a pluralidade. A outra metade é o sujeito; não se encontra colocada no tempo e no espaço, porque existe inteira e indivisa em todo ser que percebe: daí resulta que um só desses seres junto ao objeto completa o mundo como representação, tão perfeitamente quanto todos os milhões de seres semelhantes que existem: mas, também, se esse ser desaparece, o mundo como representação não mais existe”.

Contudo, apesar de toda essa tragédia da condição humana (que, aliás, rendeu ao filósofo o título de “pessimista”), Schopenhauer também afirmou em sua filosofia que existe uma válvula de escape para nós, ainda que esta seja apenas momentânea. Esse escape que nos oferece a libertação da Vontade (e consequentemente da dor) é a Arte. A contemplação da música, escultura, pintura, arquitetura poesia lírica e poesia trágica, nos permite uma elevação especial que é capaz de romper com a Vontade, e é o momento em que podemos superá-la. Isso ocorre porque a apreciação estética é capaz de ocupar a consciência de maneira plena, livrando-a e desviando-a de sua habitual atenção dada à Vontade.

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               “O Mundo Como Vontade e Representação” – Primeira Edição, 1819.

TRISTAN UND ISOLDE – Richard Wagner e a influência de Arthur Schopenhauer:

Richard Wagner nasceu em 1813 e faleceu no ano de 1883. Um de seus melhores trabalhos, a ópera Tristan und Isolde foi concluída em 1859. Esta ópera teve como uma de suas fontes de inspiração, a filosofia de Schopenhauer (note-se que o pensador ainda estava vivo quando foi lançada). E foi o próprio Richard Wagner que fez tal revelação  em uma de suas escrituras, na qual afirma que parte de Tristan und Isolde foi feita como uma reação à leitura dos livros Schopenhauer.

Além da motivação filosófica, a história da música foi também inspirada em uma lenda medieval. Entretanto, existem sutis diferenças entre a música e a história original. Em sua autobiografia, Wagner comentou a respeito de tais modificações: “Esforcei-me, de fato, em dar proeminência às fases mais ligeiras do romance, porém a sua tragédia onipresente me impressionou tão profundamente que me convenceu de que se deve destacar [tudo], independente dos detalhes”.  O conto original narrava a tragédia amorosa entre um cavaleiro chamado Tristão e uma irlandesa chamada Isolda. Embora, ao longo dos séculos, existam também algumas diferentes maneiras na forma como a história foi contada, as bases são as mesmas. Tristão, cavaleiro virtuoso da Grã-Bretanha, viaja para a Irlanda com o objetivo de encontrar Isolda e levá-la para casar-se com seu tio. Durante a viagem, acidentalmente, eles bebem uma poção de amor mágica, que era originalmente destinada a Isolda e ao tio de Tristão (que a esperava para o casório). Tristão e Isolda apaixonam-se intensamente um pelo outro por efeito da bebida. Voltam à corte na Grã-Bretanha, e Isolda casa-se com Marcos, embora mantenha um romance com Tristão. Este, acaba por ser banido de sua terra, e casa-se com Isolda das Mãos Brancas, princesa da Bretanha. Tristão continua amando Isolda. O tempo passa, e após uma série de ocorrências e aventuras por ele vividas, é gravemente ferido por uma lança e pede que busquem Isolda para curá-lo de suas feridas. Enquanto ela vai ao encontro do amado, Isolda das Mãos Brancas engana o marido, induzindo-o a acreditar que Isolda não iria. Tristão, assim, morre, e Isolda, ao encontrá-lo morto, morre também de tristeza.

Em Tristão e Isolda, notas harmônicas mesclam-se com passagens sombrias, e resultam numa sutiliza peculiar que corresponde a uma das composições mais belas já criadas.

Bryan Magee, autor do livro “The Philosophy of Schopenhauer”, analisa a música como sendo uma tentative de expressão o significado da Vontade. “A compreensão schopenhauriana da música como cópia imediata da vontade, serviu a Wagner de base para ampliar sua experimentação musical com Tristão e Isolda. Com essa obra, que considerava puramente sinfônica, a mais musical de todas as composições, pretendeu fazer o equivalente musical da doutrina schopenhaueriana da insaciabilidade da vontade. Pôs, em música, os desejos insatisfeitos ou parcialmente satisfeitos” (FEITOSA, Charles, 2001, p.159). Essa ópera é assim, vista como uma verdadeira releitura poética e sutil da filosofia pessimista e amarga de Arthur Schopenhauer.  Apesar de tudo, o músico discordava com seu admirado filósofo em alguns aspectos. Wagner chegou a escrever uma carta para Schopenhauer, lhe mostrando alguns pontos em que divergia do pensamento do filósofo, mas a carta nunca foi enviada.  Ainda que com tais diferenças, Wagner chegou a escrever a seguinte frase a respeito do pensador alemão: “veio (Schopenhauer) ao encontro de minha solidão como um dom do céu”.

SCHOPENHAUER, NIETZSCHE E WAGNERNIETZSCHE & WAGNER: o Cristianismo como fator que colocou “Nietzsche contra Wagner”:

Em 1868, quase dez anos após concluir Tristan und Isolde, Wagner iniciou uma profunda amizade com Nietzsche, que era um grande admirador do compositor. E os dois eram grandes apreciadores de Arthur Schopenhauer. Entretanto, o companheirismo do músico e do filósofo terminaria de maneira frívola, e Nietzsche acabaria por criticar fortemente seu ex-ídolo Richard Wagner por algum tempo, que por algum tempo, lhe havia sido uma pessoa tão importante.  

Em seu último ano de lucidez, pouco tempo antes de entrar em completo devaneio, o filósofo alemão escreveu um ensaio crítico chamado “Nietzsche contra Wagner” (publicado somente em 1895, após a morte do filósofo).  O grande ponto de reprovação de Nietzsche para com Richard Wagner foi o fato de o compositor ter se convertido ao Cristianismo, sendo que esta doutrina religiosa foi um dos maiores alvos da filosofia nietzschiniana. Para o filósofo, o Cristianismo representava decadência e era a maior catástrofe da humanidade. Seus seguidores eram pessoas fracas que se prendiam cegamente em dogmas cruéis estabelecidos pelas Igrejas, e que se deixavam doutrinar pela “invenção do pecado” e por um Deus controlador e impiedoso, que impede que o homem governe sua própria vida. “o cristão é o ódio ao espírito, ao orgulho, coragem, liberdade, libertinagem do espírito; cristão é o ódio aos sentidos, às alegrias dos sentidos, à alegria mesma…”, escreveu Nietzsche em O Antricristo.

Para Nietzsche, infelizmente Wagner havia seguido um caminho efêmero e retrocedente, que o levava a depender de Deus. O filósofo não hesitou em despejar sua frustração contra as escolhas do compositor: “Wagner condescendeu passo a passo para tudo o que eu desprezo (…)”.

NIETZSCHE e SCHOPENHAUER: algumas divergências consideráveis entre suas filosofias:

Embora Nietzsche tenha admirado Schopenhauer, ele também o negou, pois via seu antecessor como uma pessoa fraca (tal qual era Richard Wagner), e que havia se entregado ao pessimismo ao invés de aceitá-lo. Uma das características que tangem o pensamento de Nietzsche é exatamente o contrário desse posicionamento negativo diante da vida, que foi sustentado por Schopenhauer. Negar a vida é um declínio existencial que apenas prejudica o homem. Essa atitude não coopera em nada. Para Nietzsche, é preciso “abraçar” a vida em sua totalidade, e isto envolve acolher tudo aquilo que é negativo. Dizer não é fraqueza, é atitude do rebanho, daqueles que se entregam para a dor e que tem piedade de si próprios. Mas o homem que está além de si, o homem do “amor fati”, irá aceitar o destino sem lamentá-lo, irá amar o mundo  até em seus aspectos mais cruéis. Neste ponto, as visões de ambos no que diz respeito ao posicionamento do homem diante da vida, são simplesmente contrárias.

Portanto, Schopenhauer teria uma postura niilista na medida em que reconhece o vazio e a insignificância da existência. Para Nietzsche, o homem precisa ser exatamente o contrário disso, e precisa dizer “sim” à vida, mesmo reconhecendo sua habitual tragicidade, e inventar motivos para viver, sem jamais se entregar e se acomodar conforme fazem os niilistas.

Além dessas diferenças citadas acima, Nietzsche empregou o termo “Vontade” em sua filosofia, mas lhe atribui um outro significado, diferente do que foi postulado por Schopenhauer, e chamou-o de “Vontade de Potência”. Neste texto, já explicamos resumidamente o que a Vontade representa na filosofia schopenhauriana. Retomemos brevemente o seu sentido: ela corresponde a uma essência que move a natureza de maneira cega. É um fator metafísico que controla o homem e que o leva a um querer que “nunca cessa”. Já para Nietzsche, a Vontade de Potência é uma energia fundamental que se faz presente em toda a natureza, e que motiva o ser a sempre superar-se e elevar-se, é uma “vontade de vida”, algo que empurra a natureza sempre para frente e para além de si. Ou seja, existem claras diferenças que evidenciam uma posição pessimista por parte de Schopenhauer e otimista por parte de Nietzsche.

Nietzsche, Schopenhauer e Wagner foram, por fim, três mentes brilhantes. Seus afetos e desafetos intrigam-nos, e nos induzem a reflexões profundas a partir de suas diferentes maneiras de encarar o mundo, e de lidar com a existência.

 

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