SERÁ QUE SOMOS LIVRES?

By Acervo Filosófico

O homem é livre; mas ele encontra a lei na sua própria liberdade” – Simone de Beauvoir

Você, leitor, se considera uma pessoa livre? Sim, não ou parcialmente? Qual é o limite da liberdade e em que configurações ela se define? Há muito o que se discutir sobre sermos verdadeiramente livres e sobre o sentido que esta palavra carrega. Um fato é claro: Muitas vezes o termo é usado de maneira errônea ou ambígua. O texto a seguir consiste em reflexões dos autores Casagrande e Juliana Vannucchi sobre a noção de liberdade para o senso comum e como ela afeta até as pessoas mais esclarecidas. 

A deturpação do significado da palavra liberdade é uma ocorrência comum, e a maior parte das pessoas que emprega o referido termo numa frase não possui consciência de sua complexidade. Afirmar que “se é” ou que “algo é” livre requer reflexões profundas.

Em parte tais erros acontecem porque as pessoas, por incapacidade de raciocínio (sendo essa decorrente do meio educacional, cultural, social ou midiático), possuem noções vagas e incorretas sobre o assunto. E claro que a mídia, sempre controlada pelo Estado e mantida em oligopólio através de leis regulamentadoras, por si e em si raramente (para não generalizar) irá se preocupar com reflexões por parte de seus receptores e usuários, tendo em vista que não é vantajoso a nenhum monopólio (governos, em suma) que seus afetados possuam qualquer tipo de senso crítico. Estes, portanto, muitas vezes absorvem a totalidade do que lhes é imposto (não somente no que diz respeito à liberdade) e nem ao menos filtram as informações.

Além dos meios de comunicação, outro aspecto responsável pelo erro na interpretação da palavra “liberdade” é simplesmente a falta de interesse de muitas pessoas em buscar informações e estudos além daquele que lhes é imposto pelo mesmo monopólio anteriormente citado. Esses processos resultam no senso comum criado em cima da liberdade. E por “senso comum” devemos entender a parcela de indivíduos da população que não desenvolve um senso crítico; ou seja, aqueles que não possuem capacidade de questionamento, criando assim um conhecimento vulgar sobre todos os assuntos que não são de cunho pessoal (em outras palavras, qualquer assunto que trate de algo previamente desconhecido pelo receptor dá-se como verdade absoluta no primeiro contato, desde que não vá contra algum valor moral incluso a priori ou cultural/socialmente). O maior problema acerca do senso comum é que ele não afeta somente o indivíduo que o possui, deixando-o em mediocridade intelectual. Mesmo os mais questionadores, que estão além dos conceitos básicos, têm tido as suas vidas atacadas (em sentido literal) pela esmagadora maioria pertencente ao senso comum. Antes de prosseguir, é importante pontuar como essa ligação se dá, e destacar que o texto de forma alguma deseja pregar um elitismo acerca dos tipos de conhecimento, mas sim revelar quão profundo se faz o esforço popular para chegar a qualquer um desses tipos de conhecimento; desde os mais simples – como ações cotidianas – até os mais complexos, como regulamentações cíveis e a maioria das legislações.

É tendência mundial o estilo de governo representativo; ou seja, um ou mais líderes que representam a vontade popular. O problema se dá a partir do momento em que esses líderes pertencem também ao senso comum e são tão humanos quanto seus eleitores; ou seja, como já dito anteriormente, possuem valores morais e atribuições pessoais devidos a âmbitos socioculturais, e consequentemente desejos próprios. Na prática, representam apenas a si mesmos. Dessa forma, já é possível percebermos a falta de liberdade que temos, por meio dos representantes estatais que, na maior parte das vezes, atuam unicamente a favor deles próprios. Muitas vezes a população se ilude, acreditando que o fato de poder escolher seus candidatos torna o Brasil um país livre. Livre de quê? Livre até que ponto? De fato, somos livres para escolher um representante. Porém, novamente somos punidos se não o fizermos. Se um cidadão não justificar a ausência eleitoral no devido prazo, perde direitos importantes, tais como: tirar passaporte, obter carteira de identidade, participar de concorrências públicas da União, dos Estados, dos Territórios, do Distrito Federal, dos Municípios e de suas respectivas autarquias, dentre outros. Portanto, mesmo que os eleitores não se identifiquem com os candidatos, teoricamente são obrigados a participar das eleições. Obviamente, na prática podemos burlar a situação e não participar, e tampouco nos apresentarmos com explicações e pagamentos para o governo. Porém, conforme explicado, haverá punição. Ou seja, estamos sendo obrigados a seguir determinações, caso não queiramos sofrer consequências. Se fizermos o que nos é imposto (votar), estaremos isentos de punições. Caso contrário, se optarmos livremente por não fazê-lo, a punição virá. E agora, voltamos às perguntas supracitadas: livre até que ponto? (…)

“Não creio, no sentido filosófico do termo, na liberdade do homem. Todos agem não apenas sob um constrangimento exterior mas também de acordo com uma necessidade interior” – Albert Einstein

Para muitos, a liberdade está ligada à nossa capacidade de fazer escolhas, fato que remete muitas vezes ao pensamento sartriano. Certa vez, Albert Einstein declarou: “Não creio, no sentido filosófico do termo, na liberdade do homem. Todos agem não apenas sob um constrangimento exterior, mas também de acordo com uma necessidade interior”. Ou seja, nunca tomamos uma decisão de maneira pura, mas sempre a tomamos sob a influência de fatores externos e internos que tangem nosso inconsciente e consciente. A personalidade humana sempre é, então, determinada empiricamente; ou seja, está sempre atrelada ao espaço-tempo de seu portador e é única enquanto tal. Portanto, não basta afirmar que a liberdade é poder escolher, pois a própria escolha é predeterminada por fatores específicos, tais como os citados. Schopenhauer, em sua obra “O Livre Arbítrio”, expõe a ideia de que o homem não é um ser livre. O autor afirma que, no senso comum, as pessoas defendem a liberdade declarando que podem fazer o que quiserem. Mas Schopenhauer confronta esse pensamento, dizendo que “não se pode querer uma coisa sem exclusão da outra”, e isso, por si, já exclui a liberdade plena de nossas vidas. O filósofo, então, indaga: “como ser livre se sempre é preciso optar por apenas uma coisa?”. E então, o pensador conclui: “Nunca existe liberdade plena, pois a escolha nunca é livre, nunca é pura…”.

Para o senso comum, percebemos que a terminologia “ser livre” é muitas vezes empregada como sinônimo de poder expressar-se livremente. Logo, uma parcela dessas pessoas acredita que o fato de poderem se manifestar através de redes sociais já lhes dá total liberdade. O que esses indivíduos não parecem perceber é que, embora possam escrever ou publicar praticamente tudo o que desejam, continuam sendo vítimas de opressões pessoais e de repressões governamentais. E claro, é importante ressaltar que nenhuma rede social oferece liberdade plena para postagens, pois todas elas possuem suas próprias políticas e regras com base naquilo que julgam ser “moral” ou em interesses particulares, como já citado. Concluindo: mesmo nas redes sociais você não é livre e, definitivamente, ainda que possa ter a atitude de publicar o que quer, pode ser punido por tal ação. Ninguém é obrigado a usar uma rede social específica, e o fundo monetário das mesmas provém de patrocinadores e/ou do pagamento direto realizado por usuários, sem nenhuma coercitividade; mas o Estado é aquele sistema em que você não possui opção de variações, e que é mantido com dinheiro tirado à força de cada indivíduo que compõe a população, quer ele use os serviços estatais ou não.

Quando uma rede social percebe que o usuário está “abusando” de sua liberdade e infringindo regras particulares, essa rede social toma as mais variadas medidas, dependendo do conteúdo; porém com o diferencial de que nenhuma dessas medidas irá utilizar violência para coibir o ato praticado, mas sim represálias à liberdade do indivíduo, como por exemplo o bloqueio de postagens por um tempo predeterminado em regras. E lembrando sempre que, caso isso seja de desagrado do usuário, ele pode perfeitamente migrar para outra rede social sem pedir autorização, ou então usar mais de uma rede social. No sistema de governo as coisas não funcionam assim. Hoje você pode ir preso; ou seja, ser incluído no critério de criminoso e confinado em um ambiente onde diversos outros, pelos mais variados motivos, também o foram. O problema aí, além do óbvio fator psicológico (pois não-agressores são criminalizados pelo Estado por seus discursos, comércios e até mesmo relações pessoais/contratuais), é a não escolha direta do que pode ou não ser de utilidade para os indivíduos; ou seja, diferentemente da rede social, que possui regras claras que servem apenas para manter uma ordem preestabelecida, e que tem como punição máxima a exclusão do usuário (exclusão essa que pode facilmente ser contornada com outro e-mail), o governo, além de te prender fisicamente por territórios determinados arbitrariamente (países, Estados, Municpípios), também possui um sistema de violência e repressão física e moral a seu favor. Esse sistema possui vários nomes, como “defesa nacional”, “militares”, “guardas”, e para alguns (que sofrem de uma síndrome de Estocolmo), “heróis”. Iremos utilizar o nome popular “polícia” para o desenvolvimento do raciocínio. A polícia, diferentemente de qualquer outro serviço, compõe o monopólio estatal no âmbito de controle (juntamente com os três poderes: Executivo, Legislativo e o Judiciário). Essa corporação possui duas faces, sendo a primeira de defesa civil; ou seja, garantia da segurança da população; e a outra, que é mais vista e mais aplicada, de defesa do Estado; em outras palavras, garantia de que as leis, independentemente de suas consequências sociais, sejam cumpridas. Um bom exemplo dessa segunda face é o dia conhecido historicamente como “domingo sangrento”, em que o Czar Nicolau II ordenou que as tropas dizimassem as pessoas que estavam ali de forma pacífica com uma petição para o governo, ao som da “marcha para o Czar”, cantada pela própria população, e assim foi feito o massacre.

 Category: FILOSOFEI

Related articles

Leave a Reply