SOBRE A BREVIDADE DA VIDA – Sêneca:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

“A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas.”- Sêneca. 

“Sobre a Brevidade da Vida”, de Sêneca (4 a.C? – 65. C.), foi o primeiro livro de Filosofia que li. Esse contato inicial com a obra, me cativou de imediato e fiquei encantada com a sabedoria ali contida. Posso dizer, inclusive, que esse livro foi uma das influências para que decidisse cursar Filosofia. Para escrever este texto, eu o reli e fiz anotações de alguns trechos que considerei importante. Minha intenção é compartilhar tais trechos com os leitores e, quem sabe, instiga-los e mergulhar na leitura completa do livro. 

Sêneca foi um notável escritor, filósofo, político e dramaturgo espanhol, fortemente influenciado pelo Estoicismo e pelo Epicurismo. Dentre seus principais textos, encontram-se “Tranquillitate animi” (Da Tranquilidade da Alma), Epistolae morae, De brevitate vitae (“A Brevidade da Vida”) e Naturales quastiones (problemas naturais).

De maneira geral, o livro fala a respeito do tempo, da passagem da vida e de como ela pode ser breve ou longa, desperdiçada ou proveitosa, dependendo de como ela é encarada: “A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas”. (SÊNECA, p.26, 2006). 

O homem que sabe usufruir da existência terá uma vida proveitosa. Sêneca considera que “viver” e “existir” são coisas diferentes. Viver é algo mais intenso, mais proveitoso, ao contrário de existir, que consiste em simplesmente ver o tempo passar diante de si, sem fazê-lo render. E é justamente por existirem alternativas de como aproveitar o tempo, que o homem é seu guardião, e poderá usá-lo de maneira virtuosa ou desperdiçá-lo. Mas notando os segundos, minutos, horas, dias, meses e anos passando diante de si, as pessoas tendem a lamentar o passado, reclamar do presente e se desesperar com as coisas que estão por vir. Essas tendências, geralmente afastam a possibilidade de uma reflexão sobre o tempo e de seu verdadeiro proveito, por isso Sêneca propõe que essas perturbações somente poderão ser combatidas pelas pessoas que organizam cada dia como estes fossem os últimos de suas vidas. 

Busto de Sêneca (Museu do Prado), do século XVII, autor desconhecido.

Uma parte interessante do livro é quando o filósofo menciona que o tempo é um bem imperceptível e que muitas vezes, justamente por isso, não é valorizado. Este bem silencioso que nos é dado costuma ser observado apenas quando o ser humano tem consciência de sua finitude, momento este em que geralmente passa a valorizá-lo. Por isso, reflete o filósofo: “O que acontecerá? Tu estás ocupado, e a vida se apressa. Por seu tenho, a morte virá e a ela deverás te entregar, querendo ou não”. (SÊNECA, p.45, 2006). Ou seja, normalmente quando as pessoas estão próximas da morte ou doentes, é que elas costumam pensar sobre como e quanto tempo foi perdido  e como fazer para aproveitar e encarar o que ainda lhes resta. 

Tendemos a pensar que a vida é curta, mas na verdade, ensina nosso filósofo, ela dura tempo suficiente para os que dela sabem usufruir, combatendo assim, o desperdício do tempo. E em que consiste tal desperdício? Vejamos as palavras de Sêneca: “Se desperdiçada no luxo e na indiferença, se nenhuma obra é concretizada, por fim, se não se respeita nenhum valor, não realizamos aquilo que deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai”. (SÊNECA, p.26, 2006). A vida, portanto, não é breve, mas necessariamente longa para quem sabe vivê-la de maneira proveitosa e plena. 

Sêneca também destaca que os homens verdadeiramente ociosos são os que é se dedicam à sabedoria e não os que se entregam aos bens materiais.  Por isso, acredita que quem possui a vida mais longa é quem se aproxima e valoriza o conhecimento. Sêneca cita grandes filósofos que o antecederam como Sócrates e Epicuro, cujos legados ajudam o homem a mover-se do caos para a luz. Tudo que é material se deforma e/ou se desfaz com a passagem do tempo, mas os conhecimentos que adquirimos jamais diminuem, apenas tendem a aumentar. 

Na parte final da obra, Sêneca menciona que muitas pessoas perdem o presente em detrimento de expectativas futuras. Ele cita um exemplo muito interessante, que acredito que fará sentido para muitos: quando ansiosos para algum evento, tendemos a desejar que os dias até a ocasião passem rapidamente e, dessa forma, não usufruímos deles. 

O livro inúmeras reflexões encantadoras. Aqui, transpus apenas algumas delas, que foram as que mais me chamaram a atenção nesta segunda leitura. Sugiro que todos se proponham a mergulhar neste brilhante legado de Sêneca. Acredito que todas as pessoas, em algum momento de suas vidas, meditam sobre a passagem do tempo e, de fato, em algum sentido, se perturba com isso. Por isso acho está obra filosófica é tão valiosa, porque ela apresenta um tema que é parte da vida de todos. 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

SÊNECA, Sobre a Brevidade da Vida. Editora: L&PM Pocket, 2006. 

 

 

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