SOBRE A VONTADE:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

A Vontade não tem qualquer objetivo, é um impulso cego que se move de forma circular”. (SAFRANSKI, 2012, p. 383).

O pensamento de Arthur Schopenhauer parte de dois princípios básicos fundamentais: Vontade e representação. Assim, para melhor compreender qualquer aspecto de sua vasta e rica filosofia, é relevante que esses dois pilares sejam devidamente compreendidos, uma vez que, de alguma forma, tais elementos estão sempre presentes nas obras do filósofo. Schopenhauer parte do princípio de que o mundo em que vivemos é um mundo percebido, ou seja, ele sempre é apreendido especificamente, através do princípio da razão, sendo que tudo que o conhecimento (por meio da intuição sensível e suas formas apriorísticas) capta, é dessa forma, objeto para um sujeito. E é justamente nesse âmbito que surgem a “Vontade” (em-si) e a “representação”(fenômeno).

O mundo que existe é o nosso próprio mundo (em sentido subjetivo), e é neste ponto em particular que surge a representação, pois o aquilo que percebemos ao nosso entorno, consiste numa interpretação particular que formulamos, sendo que captamos, assim, um mundo fenomênico e aparente, na medida em que este não consiste em nada além da representação alcançada – é o mundo das aparências, apenas um reflexo do em-si. Por isso, Schopenhauer diz que não existe um sol, mas um olho que vê o sol, e não existe uma terra, mas uma mão que sente a terra. De acordo com o pensador alemão: “O mundo é minha representação”: esta é uma verdade que vale em relação a cada ser vivo e que conhece, embora apenas o homem seja capaz de acolhê-la na consciência reflexa e abstrata: e se verdadeiramente faz isto, deste modo, penetrou nele a meditação filosófica”. (REALE; ANTISERI, 1990, 218).

Contudo, por trás do fenômeno que podemos conhecer, há uma essência que pode ser alcançada e que compõe toda a natureza, e a ela, Schopenhauer denomina Vontade. Essa Vontade consiste num impulso universal, e pode ser compreendida como uma raiz metafísica irracional, uma força matriz e primária que formula a existência dos seres vivos na natureza, fazendo-se presente em todos os organismos, tanto orgânicos quanto inorgânicos, e estando sempre a impulsionar quaisquer esses organismos e sendo responsável pela funcionalidade de seus organismos. Conforme Safranski esclarece: A essência de vida é a vontade de viver, uma sentença conhecida como tautológica pelo próprio filósofo, porque a vontade não se distingue da própria vida”. (SAFRANSKI, 2012, p. 383). A Vontade encontra-se, portanto, em minérios, plantas e animais. De acordo com as palavras de Schopenhauer: “O que aparece nas nuvens, nos córregos e nos cristais, é o mais débil eco daquela vontade, que se mostra de modo mais perfeito no vegetal, mais perfeito ainda no animal, do modo mais perfeito no homem”. (SCHOPENHAUER,1974, p. 21).

É essa Vontade que se encontra, portanto, sempre presente em tudo o que está diante de nós, e é esse fator natural que está sempre nos movendo. Ressalte-se que a Vontade é compreendida por Schopenhauer como sendo a coisa-em-si, isto é, aquilo que compõe essencialmente em tudo o que há na natureza: encontra-se nos minérios, nos vegetais, nos animais e, enfim, em qualquer substância natural. Possui sua manifestação mais expressiva no homem, no qual desencadeia uma série de necessidades: “E o homem sendo a objetificação mais perfeita da vontade da vontade de viver, é também o mais necessitado dos seres; nada mais é que vontade e necessidade, de modo que se poderia defini-lo até como concretude de necessidades”. (REALE; ANTISERI, 1990, 214).

O que aparece nas nuvens, nos córregos e nos cristais, é o mais débil eco daquela vontade... (SCHOPENHAUER,1974, p. 21).

Dessa forma, estando intrinsecamente presente em cada indivíduo, até mesmo o próprio conhecimento humano está sempre intimamente ligado e subordinado à Vontade. Assim, de acordo com Schopenhauer: “Regra geral, o conhecimento permanece sempre sujeito ao serviço da vontade, dado que se formou para este serviço, e mesmo emergiu da vontade assim como a cabeça emerge do tronco”. (SCHOPENHAUER, 2005, p.17).

Dentro desse contexto, a leitura subjetiva que fazemos do mundo (ou seja, daquilo que Schopenhauer entende como sendo a representação) que se mostra a nós, também está relacionada e depende da essência natural que nos compõe. Por isso, o próprio fenômeno é um espelho da Vontade. Neste contexto, a razão surge como instrumento inato que relaciona a leitura que fazemos do mundo com o nosso próprio corpo, pois o intelecto, através dos princípios apriorísticos de espaço, tempo e causalidade, é  responsável por ordenar os dados absorvidos pelo corpo e transformá-los em conceitos: “Uma vez como indivíduos, não temos conhecimento algum fora do subordinado ao princípio da razão”. (SCHOPENHAUER, 2005, p. 33).

Também considerando que a essência que tange a natureza pode ser conhecida, Schopenhauer postula o meio que leva o homem a tal conhecimento e este meio é o próprio corpo: “Pois o indivíduo encontra seu corpo como um objeto entre objetos, como todos eles mantendo variadas relações e proporções conforme o princípio de razão, cuja observação, portanto, por vias mais ou menos extensas, sempre reconduz ao seu corpo”. (SCHOPENHAUER, 1974, p. 17). O corpo, dessa forma, consiste num caminho para compreensão da essência do mundo, isto é, da  Vontade, na medida em que esta é constatada e sentida através dos movimentos corporais e dos sentimentos: “O corpo é, portanto, vontade tornada visível. Sem dúvida podemos olhar nosso corpo e falar dele como de qualquer outro objeto – e, nesse caso, ele é fenômeno. Mas é por meio de nosso corpo que sentimos, que vivemos, experimentando prazer e dor e percebemos o anseio de viver e o impulso da conservação”. (REALE; ANTISERI, 1990, p. 213).

Todo desejo nasce de uma necessidade, de uma privação, de um sofrimento (…)”.

A Vontade, através do corpo, encontra-se sempre presente em nossas vidas, e conduz nosso cotidiano atuando como um impulso inconsciente que é responsável por direcionar o homem em suas ações. De acordo com Safranski: “A Vontade não tem qualquer objetivo, é um impulso cego que se move de forma circular” (SAFRANSKI, 2012, p. 383). Assim, sempre que um sujeito realiza algo, está sendo influenciado e movido por sua raiz essencial, que é a vontade. 

Para Schopenhauer, essa essência da natureza torna-se nociva, pois nos condena à medida que nos torna dependentes dela. Sendo um impulso cego e incessante, que nos guia e influência ainda que não tomemos consciência de tal efeito, está sempre nos aprisionando por tal ligação e, assim, a vontade é interpretada como sendo um aspecto negativo: Enquanto estamos sob o império do desejo, sob o domínio da vontade, enquanto nos abandonamos às esperanças que nos acometem, aos temores que nos perseguem, ele não é para nós nem repouso, nem felicidade amável”. (SCHOPENHAUER, 2014, p. 93).

A Vontade desencadeia no homem uma sucessão de desejos, que surgem a todo instante, e que jamais podem ser completamente saciados, embora estejam sempre nos motivando e influenciando nossas ações. Essa vontade controla todo e qualquer ser humano, mas, em contrapartida, o ser humano não é capaz de controlá-la. É possível compreender esse fato pelas palavras do próprio filósofo: “Todo desejo nasce de uma necessidade, de uma privação, de um sofrimento. Satisfazendo-o, acalma-se; mas embora se satisfaça um, quantos permanecem insaciados”. (SCHOPENHAUER, 2014, p. 93). O homem, dessa maneira, é visto como um ser que se encontram sempre acorrentado dolorosamente à sua essência, pois é sempre, a contragosto e naturalmente dominado por sua vontade impulsivo. Enquanto os desejos dela oriundos nunca são satisfeitos plenamente, sendo que quando são preenchidos, são substituídos por outros, o sujeito, por sua vez, encontra-se, como consequência desse fato, sempre insatisfeito, e suas necessidades nunca terminando, apenas se multiplicam a todo instante: “A essência da natureza inconsciente é aspiração constante, sem objetivo e sem repouso. E, ao mesmo tempo, a essência do animal e do homem é querer e aspirar: sede inextinguível.” (REALE; ANTISERI, 1990, 214).

REFERÊNCIAS:

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario.  In: História da Filosofia. São Paulo: Paulus, 2004. (Coleção Filosofia, volume 5). Tradução de Ivo Storniolo.

RUDIGER, Safranski. Schopenhauer e os Anos Mais Selvagens da Filosofia. São Paulo: Geração Editorial, 2011.

SCHOPENHAUER, Arthur. As Dores do Mundo. São Paulo: EDIPRO, 2014. 136 p. Tradução de: José Souza de Oliveira.

SHOPENHAUER, Arthur. O Mundo Como Vontade e Como Representação. 2. ed. São Paulo (SP): Unesp, 2015. 646 p. (Tomo I). Tradução, apresentação notas e índices de Jair Barboza.

SHOPENHAUER, Arthur.  O Mundo Como Vontade e Como Representação. São Paulo (SP): Unesp, 2015. 806 p. (Tomo II). Tradução, apresentação notas e índices de Jair Barboza.

SHOPENHAUER, Arthur. O Mundo Como Vontade e Representação (III parte): in: Schopenhauer. São Paulo: NOVA CULTURAL, 2005. (Os Pensadores). Tradução de: Wolfgang Leo Maar, Maria Lúcia Mello e Oliveira Cacciola.

 

 

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