SÓCRATES, PLATÃO E ARISTÓTELES NA PERSPECTIVA DE ARTHUR SCHOPENHAUER:

By Acervo Filosófico

       Por: Juliana Vannucchi

A seguinte publicação baseia-se no texto “Fragmentos Sobre a História da Filosofia”, que é parte do livro Parerga e Paralipomena, publicado na Alemanha em 1851, e escrito por Arthur Schopenhauer. O objetivo deste conteúdo é aproximar o leitor da interpretação que o filósofo alemão possuía acerca de três dos maiores filósofos da história do pensamento ocidental. Gostaria de esclarecer que o próprio autor do texto no qual me baseei, afirma em nota introdutória que os fragmentos que escreveu são interpretações subjetivas realizadas a partir de estudos feitos sobre obras originais.

Sócrates:

Inicialmente, é feita uma comparação sutil entre a imagem de Sócrates nas obras de Platão e de Xonofonte, em que, respectivamente, Sócrates é apresentado como uma pessoa poética e idealizada e, em contraponto, mostrado sem possuir grande sabedoria. 

Independente da maneira como foi retratado, as temáticas e qualidades do pensamento de Sócrates são dubitáveis, pois é falho o fato de o pensador não ter registrado sua filosofia por escrito, uma vez que tal forma de registro é fundamental para qualquer pensador: “No que concerne às elevadas capacidades intelectuais, pode-se levantar a mesma dúvida em relação a todos aqueles que não escreveram e, portanto, também em relação a Pitágoras”. (SCHOPENHAUER, 2007, p.58). A escrita é amplamente mais vantajosa do que o diálogo oral, pois a primeira opção de registro é capaz de comunicar à humanidade, enquanto a segunda, apenas um número restrito/menor de pessoas. 

Há uma curiosa comparação entre Kant e Sócrates, pois “ambos rejeitaram todo dogmatismo, ambos reconhecem uma completa ignorância em matéria de metafísica, e sua particularidade reside na clara consciência dessa ignorância”. (SCHOPENHAUER, 2007, p. 60).

Ao final do texto, há uma menção na qual o alemão considera como “a vantagem do método socrático (SCHOPENHAUER 2007, p.61) que seria, de acordo com os textos platônicos, “fazer com que o colocutor, ou oponente, admita, isoladamente, os fundamentos das proposições, que tentava demonstrar, antes que ele perceba suas consequências (…)”. (SCHOPENHAUER, 2007, p.61).

Platão:

A metafísica platônica não seria sustentável, e o principal responsável por isso é Kant, “o demolidor de tudo” (SCHOPENHAUER, 2007, p.61), pois para Platão o homem possui a alma como substância imaterial e cognoscente, e que diferencia-se do corpo, sendo este um obstáculo para obtenção do conhecimento verdadeiro. Dessa forma, aquilo que se conhece através dos sentidos é errôneo, e o verdadeiro conhecimento está além da intuição (ou seja, não provém da sensibilidade), e a alma “tem mais êxito quando se desprende do corpo” (SCHOPENHAUER, 2007, p. 63). 

A filosofia Kantiana teria mostrado a irregularidade do pensamento do Platão pelo fato de que Kant considera que haja um conhecimento racional a priori que não seja criado por intermédio da experiência, mas que “só tem valor e validade com a finalidade da experiência”. (SCHOPENHAUER, 2007, p.67). Isso demonstra que a formação do conhecimento precisa da intuição cujo intermédio é o corpo e, portanto, a metafísica construída e defendida por Platão, mostra-se “importuna, equivocada e até impossível”. (SCHOPENHAUER, 2007, p. 68).

Há uma curiosa comparação entre Kant e Sócrates, pois “ambos rejeitaram todo dogmatismo, ambos reconhecem uma completa ignorância em matéria de metafísica, e sua particularidade reside na clara consciência dessa ignorância”. (SCHOPENHAUER, 2007, p. 60).

Aristóteles:

Aristóteles é acusado de ser superficial e de nunca, em suas obras, fixar-se num tema específico, sendo sempre disperso. A maneira pela qual o pensador grego encarava e analisava o mundo, seria rasa e a obra Metafísica é a maior demonstração destes aspectos negativos: “Sua metafísica é em grande parte um discurso oscilante sobre os filosofemos de seus antecessores, que ele critica e refuta a partir de seu próprio ponto de vista, geralmente segundo declarações isoladas deles, sem realmente penetrar seu sentido, e sim como alguém que arromba a janela a partir de fora”. (SCHOPENHAUER, 2007, p. 69).

A filosofia aristotélica não possui conclusões e tampouco abordagens pertinentes, tornando-se assim uma série de pensamentos ocos, que são expostos sem planejamento e que se caracterizam por suas insuficiências. Em oposição a Aristóteles, encontra-se Platão, que “mantém como firmeza seus principais pensamentos; com mãos-de-ferro persegue seu fio, por mais fino que seja, em todas as ramificações, pelos labirintos dos mais longos diálogos, e volta a encontrá-los após todos os episódios” (SCHOPENHAUER, 2007, p. 72).

Assim, ao contrário de Aristóteles, Platão possui foco é objetivos definidos em seu sistema de pensamento e soube estrutura-los, defini-los e discuti-los com profundidade. 

Além das ressalvas mencionadas, é destacado um dos equívocos absurdos cometido por Aristóteles, apresentando uma passagem de um de seus livros: “De acordo com o pensador grego, as estrelas encontram-se firmemente cravadas na esfera oca e giratória; o Sol e os planetas, em outras semelhantes e mais próximas: o atrito na rotação provoca luz e calor; a Terra é explicitamente imóvel” (SCHOPENHAUER, 2007, p. 75). Eis que surge o escorregão do filósofo grego: “Tudo isso poderia passar se antes não tivesse existido nada melhor. Mas, quando ele próprio, no capítulo 13, nos apresenta opiniões totalmente corretas dos pitagórigos sobre a forma, a posição e o movimento da Terra, a fim de rejeitá-las, inevitavelmente desperta nossa indignação”. (SCHOPENHAUER, 2007, p. 75). Ou seja, Aristóteles critica arduamente o correto, combatendo-o com um pensamento imaginário que não possui nenhuma consistência plausível, sendo meramente especulativo.

Arthur Schopenhauer, conforme vimos, apresenta claramente perspectivas negativas sobre o pensamento de Sócrates, Platão e Aristóteles. Entretanto, lembremos que o alemão foi fortemente influenciado por Platão, e que o estudou com bastante interesse e intensidade. Este posicionamento de Schopenhauer é válido para que, quem sabe, possamos fazer/refazer uma nova leitura e aplicar um olhar mais crítico nas obras clássicas dos três filósofos gregos, tentando captar as supostas falhas que foram apresentadas neste estudo.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

SCHOPENHAUER, Arthur.Fragmentos Sobre a História da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

Related articles

Leave a Reply