TIPOS DE CONHECIMENTO:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Em sua Metafísica, Aristóteles escreveu que “por natureza, todo homem deseja conhecer”. De fato, notamos que o desejo pelo conhecimento acompanha o ser humano desde os primórdios e, com o passar do tempo, conforme o homem evoluiu, surgiram algumas maneiras diferentes de construir conhecimento, sendo que é através delas que se compreende, interpreta e se explica a natureza, a existência, a realidade e o mundo  em seus inúmeros aspectos. 

Neste texto, iremos explorar especialmente quatro tipos de conhecimento: o senso comum, a filosofia, a religião e a ciência. Iremos explicas as bases desses diferentes tipos de saberes, identificaremos  diferenças e estabeleceremos  semelhanças entre eles, e também apresentaremos suas principais características.

Mas antes de prosseguirmos, há duas ressalvas importantes: inicialmente, é válido esclarecer que este texto é de cunho introdutório e, além disso, há outras vias para se obter conhecimento além das que iremos mencionar.

Comecemos pelo senso comum: este tipo de conhecimento é adquirido pela tradição ou, então provém da experiência cotidiana, e representa o modo de pensar da maior parte das pessoas. Embora tenha seu valor e possa ser notavelmente prático e eficiente no dia-a-dia, de maneira geral é superficial, padronizado e não critico, além de não se preocupar em explicar as informações e saberes que o moldam. Para entender melhor, pensamentos no seguinte exemplo: um indivíduo, por experiência, pode entender que certo tipo de vegetal cresce numa época do ano específica, e isso poderá lhe render um bom plantio. Entretanto, esse sujeito não será capaz de explicar sistematicamente as razões pelas quais isso acontece, enquanto que, por outro lado, a ciência poderá fornecer uma justificativa sistemática sobre as propriedades dos fenômenos envolvidos nesse evento, entendendo como esse processo ocorre – o vegetal possui uma composição interna X que quando em contato com uma intensidade solar Y, gera um crescimento. Vejamos outro exemplo que demonstra as diferenças entre esses dois tipos de conhecimento que acabamos de citar (senso comum e ciência): “Pelo senso comum, sabemos que a água se congela quando a temperatura abaixo o “suficiente”. A imprecisão característica desse tipo de conhecimento é evitada pela ciência, que exige uma medição precisa. Além disso, ela pode verificar a variação imensa em que ocorre a solidificação dos líquidos, seja o caso da água, do leite, da cerveja, da vodka (que não congela nos freezers domésticos), e tem condições de explicar ainda por que um poço co gela e o oceano não”. (2003, p. 157). 

A religião é fundamentada em um conhecimento essencialmente revelado pelos livros sagrados e por uma determinada tradição religiosa.

Já que mencionamos a ciência e a comparamos com o conhecimento advindo pelo senso comum, vamos então explorá-la melhor. A ciência é um tipo de conhecimento formulado racionalmente, sendo organizado, empírico e sistemático, e se preocupando em compreender, explicar e justificar os fenômenos com os quais se ocupa. Além disso, ela é capaz de mensurar e controlar esses fenômenos, elaborando leis gerais, verificáveis e universais sobre os mesmos. Outro aspecto importante do conhecimento científico é que a ciência possui um método bastante específico pelo qual se obtém determinadas conclusões. Esse método chama-se “método científico” e, em suma, podemos dizer que consiste num conjunto de etapas pelas quais uma pesquisa deve passar para que um conhecimento científico torna-se válido e aceito universalmente.

Partamos agora para o conhecimento filosófico. Definir a filosofia não é uma tarefa simples. Podemos até mesmo dizer que uma definição já é por si só um problema filosófico e há até mesmo um campo de investigação que se ocupa disso (e também de outras coisas), chamado Metafilosofia. Porém, há algumas características que tangem essa área do saber e que podemos identificar aqui. Primeiramente, lembremos que a palavra “filosofia” significa “amor ao saber” e que ela se empenha na busca pela verdade. Compreenda-se que a filosofia é baseia-se na razão, ou seja, no exercício intelectual e esse é seu ponto de partida para realizar discursos acerca da natureza. A filosofia, antes de qualquer coisa, ocupa-se do questionamento, da desconstrução e do senso crítico. A partir de tais elementos, o conhecimento filosófico irá se pautar na argumentação, ou seja, numa justificativa pautada no raciocínio lógico, no encadeamento de ideias, em explicações coerentes e embasadas. A partir de tais características, geram-se discursos sobre a natureza, mundo, realidade, arte, política, ética, e busca-se a verdade sobre tais elementos. E a própria filosofia levante indagações sobre a ciência, seu método, suas limitações e conhecimentos produzidos, além de também questionar a religião e seus vários aspectos e componentes.  

Note-se que, embora tenhamos comentado sobre filosofia e ciência como áreas do conhecimento que se distinguem, até a Idade Moderna, ambas eram praticamente indistintas e somente nesse referido período histórico é que cada uma passou a ter seu próprio método e, assim, se distanciaram, seguiram caminhos diferentes e se moldaram de maneiras singulares. Conforme escreve Bazarian (1994, p. 33): “Graças ao desenvolvimento da técnica e à aplicação dos métodos científicos no estudo de diferentes fenômenos, várias disciplinas, que antes faziam parte da Filosofia, foram paulatinamente destacando da mesma e tornando-se ciências autônomas sobre determinado aspecto da realidade (…)”.

A religião (tanto a politeísta, quanto a monoteísta), por sua vez, é fundamentada em um conhecimento essencialmente revelado pelos livros sagrados e por uma determinada tradição religiosa. Para um católico, por exemplo, a verdade encontra-se no conteúdo presente na Bíblia – o que ali consta, é fato, e não é possível contradizer tal fato. Lá estão compilados comportamentos, deveres terrenos e divinos, além de explicações sobre o mundo, sobre a vida, sobre a morte e sobre inúmeros outros aspectos. Por se tratar de um conhecimento narrado, de cunho espiritual e já estabelecido, mas que não pode ser demonstrável e/ou comprovado racionalmente, esse tipo de conhecimento, portanto, é movido e sustentado pela fé, que consiste justamente na crença e na confiança em algo que não pode ser provado. 

Bertrand Russell (1872-1970) entendia a filosofia como um meio termo, uma Terra de Ninguém entre a ciência e a religião.

Um fato interessante é que durante a Idade Média, a religião e a filosofia se aproximaram e houve uma tentativa de conciliar a fé e a razão, que são respectivos instrumentos pelos quais ambas arquitetam seus saberes. Nesse período, notou-se o esforço por parte dos pensadores em explicar os elementos religiosos (especificamente cristãos) através da racionalidade, porém, o que realmente prevalecia era a religião, e não a filosofia.  

Bertrand Russell (1872-1970) entendia a filosofia como um meio termo, uma Terra de Ninguém entre a ciência e a religião. Para o pensador, a ciência é uma área que atua por intermédio da razão, enquanto a religião realiza especulações sobre assuntos que estão além do conhecimento exato, e a filosofia, por sua vez, levanta questões que não podem ser respondidas de maneira convicta nem pela ciência e nem pela religião. Russel fornece alguns exemplos de quais são essas indagações: “Acha-se o mundo dividido entre espírito e matéria? E supondo-se que assim seja, que é espírito e que é matéria? (…) Possui o universo alguma finalidade ou propósito? Existe realmente leis da natureza, ou acreditamos nelas devido unicamente ao nosso amor inato pela ordem? (…) 

Além dos quatro tipos de conhecimento que propusemos acima, é importante salientar que há outras vias pelas quais o ser humano interage e interpreta o mundo, tal como a arte e a mitologia, por exemplo. Perceba que, de uma forma ou de outra, todos os tipos de conhecimento fazem ou já fizeram algum sentido em determinada época e local. Nenhum deles deve ser menosprezado, pois todos já mostraram eficiência e renderam resultados positivos e agregadores à humanidade. 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

MARTINS, Maria Helena Piris. ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofando – Introdução à Filosofia. São Paulo: Editora Moderna, 2007.

BAZARIN, Jacob. O Problema da Verdade. São Paulo: Alfa-Omega, 1994.

 

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