INVESTIGAÇÃO SOBRE A EXISTÊNCIA DE DEUS NO TRATADO DE METAFÍSICA DE VOLTAIRE:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Os atributos de Deus são abismos impenetráveis para o homem.

Abaixo, segue um resumo de uma parte (capítulo II) da obra “Tratado de Metafísica”, escrita por Voltaire em 1938. Tenha-se em mente que tal reflexão escrita pelo filósofo iluminista é dividida em partes, sendo a primeira uma argumentação a favor da existência de Deus, a segunda uma refutação, na sequência, possíveis respostas às refutações e, por fim,  um tópico intitulado “Consequências Necessárias da Opinião dos Materialistas”. 

O processo reflexivo de Voltaire inicia-se com a seguinte colocação: há duas opções: ou Deus existe ou não. Inicialmente, o filósofo francês observa que a compreensão que os homens possuem a respeito de Deus é divergente entre si, tal como são as próprias religiões e as leis humanas. Segue-se então, com um tópico intitulado “Razões a Favor da Existência”. Em seguida, há comentários cujo foco é justamente o oposto a este tópico inicial, isto é, são apresentadas razões contra a suposta existência de Deus.

Sumário das Razões a Favor da Existência de Deus:

A primeira observação feita nesta primeira parte (razões que favorecem a existência de Deus) é a consideração de uma inegável e perceptível ordem do universo e o fim com que cada coisa parece relacionar-se. Para demonstrar esta evidência, Voltaire faz uma comparação: “Quando vejo um relógio cujo ponteiro marca as horas, concluo que um ser inteligente o criou. Quando observo as molas do corpo humano, concluo que um ser inteligente  arranjou os órgãos”. Esta analogia propõe que é possível supor a existência de Deus através da observação do mecanismo e funcionalidade da natureza. 

Este Deus seria um ser supremo, inteligente, infinito, eterno e que é a causa originária de todas as coisas. Porém, embora seja possível percebê-lo através de uma atenção reflexiva dada ao mundo, Voltaire acredita que também é demonstrado que o ser humano não é feito para entender os atributos e a essência deste ser. 

Segue-se com um segundo argumento: se existo, algo existe. E: “Se algo existe, existiu desde toda a eternidade, pois aquilo que é, ou é por si mesmo ou recebeu seu ser de outro. Se é por si mesmo, é necessariamente, sempre foi necessariamente e é Deus. Se recebeu de outro, e este segundo de um terceiro, aquele de quem este último recebeu seu ser deve ser necessariamente Deus, pois não podemos conceber um ser que dê o ser a outro se não tiver o poder de criar”. (VOLTAIRE, 1978, p.64).  Ou seja, se algo existe, este algo implica uma causa originária e, assim, chega-se, por coerência, a conclusão de que é preciso admitir que haja um ser primordial, eterno, necessário e infinito, do qual provieram os outros. 

Há outro argumento: o mundo não pode existir como necessidade absoluta. Voltaire inicia uma demonstração disso afirmando que as coisas existentes só possuem movimento porque alguém os executa, sendo que o movimento não existi por si como parte da natureza. Por exemplo: antes de eu escrever este texto, ele não tinha existência alguma, e apenas passa a tê-la porque eu causei o movimento. Seguindo este raciocínio, o mesmo acontece com toda a natureza. Conforme Voltaire: “Produzo movimento, portanto, o movimento não existia necessariamente antes, portanto, o movimento não é essencial à matéria, portanto, esta o recebe de fora, portanto, há um Deus que lho dá”. (VOLTAIRE, 1978, p. 64).

                                 Voltaire (1694-1778).

Além disso, o filósofo observa que, tal como ocorre com o movimento, há aspectos não essenciais à matéria, que indicam a existência de Deus. Exemplo disso são a sensação e o pensamento, que são dons que apenas certos entes possuem, mas que não estão intrinsecamente contidos na natureza, pois conforme Voltaire (1978, p.64): “Um rochedo é uma espiga não pensam”.

Dificuldades Sobre a Existência de Deus:

Nesta parte, o filósofo pontuou quatro observações que serão analisadas de acordo com seu ordenamento original.

  1. Ou Deus criou o mundo ou ele é o próprio mundo. Se optamos pela primeira via, encontramos alguns problemas: “Fazendo este mundo, ou tirou-o do nada ou tirou-o de seu eu divino”. (VOLTAIRE, 1978, p.64). Mas como poderia se criar algo do “nada” se o nada “não é algo”? Assim, resta considerar que Deus fez o mundo a partir de si, ou seja, nas palavras de Voltaire: “Esse mundo faria essencialmente parte da essência divina” (VOLTAIRE, 1978, p.65), contudo, se assim fosse, não poderíamos ter ideia da criação e esta não poderia ser admitida.
  1. Se Deus fez este mundo, ou o fez por necessidade ou livremente. Mas a primeira opção nos conduz a pensar que então o fez desde sempre, “pois tal necessidade é eterna”. (VOLTAIRE, 1978, p.64) e o mundo neste caso, seria eterno e criado, sendo isto uma contradição. Em contrapartida, pensar que Deus fez este mundo livremente, também implica contradição, uma vez que o Autor não pode fazer criar algo sem que tenha uma razão para isso: “é contraditório supor um Autor infinitamente Sábio fazendo tudo sem uma razão que o determina”. (1978, p.65). Além disso, questiona-se como um ser tão potente poderia passar toda a eternidade sem usar sua potência e sem ter feito nada. 
  1. Quanto mais um homem atenta-se ao mundo, mais perceberá que existe uma harmonia na natureza, sendo esta formada por leis imutáveis e forças ordenadas, fato que é perceptível “desde as estrelas até o verme do queijo” (1978, p.65). Assim, todo o que há, rege sua funcionabilidade através de da operação de tais leis.
  1. Aqui surge um questionamento com base do comentário acima. Caso a observação do sistema de leis ordenadas da natureza conduzisse a uma prova da existência de Deus, seria conclusivo que este criador seria um bárbaro, porque “se admitirmos causas finais, seremos obrigados a dizer que Deus, infinitamente sábio e infinitamente bom, deu vida a todas as criaturas para que entre si se devorassem”. (1978, p.65). Observando os animais, percebe-se que as diferentes espécies possuem instintos para destruir umas às outras.

Dessa forma, podemos e seria até mesmo lógico acreditarmos que Deus é bárbaro, uma vez que os seres deste planeta agem com barbaridade. Nas palavras de Voltaire: “Diante das misérias do homem, há o suficiente para dirigirmos censuras às Divindades durante toda nossa vida”. (VOLTAIRE, 1978, p.65). Além disso, caso combata-se tal observação afirmando que não podemos tirar essas possíveis conclusões dizendo que o homem não possui uma medida segura para fazer a análise acima, caímos em contradição, uma vez que, portanto, o ser humano possui ideias falsas em sua natureza, sendo este um fato contraditório, pois “isso equivale a dizer que um ser que só possui perfeitos lança suas criaturas no erro, que é propriamente falando, a única imperfeição”. (1978, p.65).

Respostas às Objeções Anteriores: 

Primeiramente, há uma reflexão na qual argumenta-se contra a criação, pois mostra-se que esta é impossível de ser concebida, embora não seja impossível em si. Porém, dizer que a criação é inconcebível, implica em um problema: “Para que a criação fosse impossível seria preciso provar primeiro que é impossível que haja um Deus”. Portanto, conclui-se que “somos obrigados a reconhecer a impossibilidade de sua não-existência” (VOLTAIRE, 1978, p.65). 

Continua-se a investigação com uma problemática acerca da matéria, que pode ser compreendida da seguinte forma: como Deus, que não é material, produziu seres compostos pela matéria? O problema que surge nesta parte do livro, é que se Deus criou o mundo com base em si próprio (a partir de si), então, de alguma forma, ele também seria matéria. Voltaire indaga: “Ora, como Deus terá podido produzir um ser material se não é material?” (VOLTAIRE, 1978, p.66). Neste ponto, há três opções: Ou ele pode criar algo a partir de algo que possui (isto é, que não é parte de si) ou a matéria não possui a causada existência de seu criador, ou então, por fim, ela é negação e limitação. No entanto, este trecho é finalizado da seguinte forma: “Se essas três vias forem absurdas, será preciso que admitais que a existência dos seres integrantes não prova que o ser existente por si mesmo seja matéria, pois ambos os casos são absolutamente semelhantes”. (VOLTAIRE, 1978, p.66). 

Na sequência com uma explicação de que Deus não encontra-se na situação das causas conhecidas, tendo sido capaz de criar o espírito e a matéria, mesmo sem ser o espírito ou a matéria, sendo que nenhum destes elementos deriva de Deus e são somente uma criação sua. Essa consideração leva à conclusão de que não é possível conhecer o “quomodo”, isto é, o “como” de Deus, pois, ainda que “sua existência seja demonstrada, também é demonstrado que o homem não foi feito para compreender seus atributos e essências”. (VOLTAIRE, 1978, p.66). 

O texto segue com a reflexão de que supor que Deus não pode fazer o mundo nem necessária e nem livremente (lembrando que esta suposição já foi explorada antes como uma objeção contra a existência de Deus), é um sofisma que “cai por si mesmo, desde que se tenha provado que há um Deus e que o mundo não é Deus”. (VOLTAIRE, 1978, p.66). Isso significa que não se pode entender que Deus tenha criado o universo em algum tempo determinado. Voltaire escreve que esse tipo de especulação seria o mesmo que tentar compreender, por exemplo, porque algum homem ou um cavalo existiu há milhares de anos antes e por isso, julgar que então, suas existências seriam impossíveis. 

“Para que a criação fosse impossível seria preciso provar primeiro que é impossível que haja um Deus”.

Somado a isso, Voltaire acrescenta que é preciso admitir a existência de um primeiro motor, uma vez que nada age por si, e que o movimento de tudo o que há, leva à necessidade da existência de um motor primeiro. Como exemplo desta situação, cita as leis matemáticas, que são imutáveis, mas que não podem agir por si próprias, nenhuma age sem movimento e “toda a natureza, desde a estrela mais longínqua até um pedacinho de erva, deve estar submetida a um primeiro motor”. (VOLTAIRE, 1978, p. 67). 

O pensador assegura também (e isso já menciona anteriormente) que a repetição de efeitos e movimentos dos órgãos que compõe todas as coisas, leva à percepção inegável de uma causa final, e isso se dá desde o germe dos vegetais até todos os animais. Em relação a isso, é apresentada à impossibilidade de uma prova concreta ou material, e é feita a seguinte comparação: “Concordo que não existe demonstração propriamente dita que prove que o estômago seja feito para digerir, como não existe demonstração de que é dia, mas os materialistas estão bem longe de poder demonstrar também que o estômago não é feito para digerir”. (VOLTAIRE, 1978, p. 67). Ou seja, a observação cautelosa, atenta e aprofundada do mundo, induz a crer que Deus exista, e a impossibilidade de se provar este fato materialmente (ou mesmo cientificamente) não significa sua não existência. 

Pontua-se ainda que combater a existência de Deus através de indagações e refutações feitas acerca do mal moral é um ato medíocre e vão, uma vez que seria impossível explicar o mau moral pelo sistema da matéria, ou seja, através dos ideais de justiça que temos, uma vez que nossas noções sobre justiça são, inclusive, pautadas naquilo que é socialmente útil  desencadeia um bem comum. Isto seria como julgar um triângulo de três lados como desiguais, sem que se tenha ideia de um triângulo equilátero: “É, portanto, insensato censurar a Deus porque as moscas são comidas pelas aranhas e porque os homens só vivem oitenta anos, (porque) abusam de sua liberdade para se destruírem uns aos outros, (porque) têm doenças, paixões cruéis, etc.” (VOLTAIRE, 1978, p.65).  O filósofo conclui nesta passagem que embora haja dificuldades em sustentar-se a opinião de que há um Deus, a opinião contrária profere absurdos.

Consequência Necessárias da Opinião dos Materialistas:

O materialista, para combater a possibilidade e/ou existência de Deus, alega que o mundo existe necessariamente e por si mesmo. Este tipo de afirmação os leva, consequentemente, a defender que o mundo material possui essencialmente o sentimento e o pensamento, uma vez que não há causa externa/primária para os mesmos. Mas estes elementos são inerentes à matéria, não compõe toda a natureza, pois apenas um certo número de partes os possuem: “assim, de qualquer lado que nos viremos, só encontraremos quimeras que se destroem”. (VOLTAIRE, 1978, p.68). Além disso, no momento em que um materialista afirma que o movimento é essencial à matéria, cai em inúmeras contradições e absurdos, pois isso implica em dizer que o movimento nunca poderá aumentar ou diminuir, ou que “cem mil homens marchando juntos e c tiros de canhão que disparam não produzem nenhum movimento novo na natureza” (VOLTAIRE, 1978, p.68). 

Por fim, o filósofo conclui que as inúmeras dúvidas surgidas durante as especulações acerca da existência de Deus, levam a “poder encarar a proposição Existe um Deus como a coisa mais verossímil que os homens possam pensar, e após ter visto que a proposição contratos é uma das mais absurdas, parece natural pesquisar qual a relação existente entre Deus e nós (…)”. Portanto, após tal conclusão, o homem pode examinar sua própria existência suas possíveis relações com a (inegável) origem divina. 

Referência Bibliográfica:

VOLTAIRE. Tratado de Metafísica, coleção “Os Pensadores”. Editora: Abril. São Paulo, 1978.

 

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