TRUMP GANHOU! E AGORA?

By Acervo Filosófico

Por Paulo Pedroso

Donald Trump foi eleito nos EUA… Sua fama oscila entre “fanático”, “celebridade”, “caricato”, “carismático” e “ícone do conservadorismo republicano”. Mas, afinal, qual impacto essa vitória terá nos EUA, aqui no Brasil e possivelmente no resto do mundo? Não, leitor: não sou anarquista, nem a favor de ditaduras militares. Tento aqui não me posicionar politicamente para não ser tendencioso, apenas estou pontuando uma série de fatores que percebi com a campanha e vitória de Trump. Suponho que essa ânsia por mudanças acaba por eleger homens como ele.

Tentemos desconstruir a situação como um todo: um republicano foi eleito mesmo com toda a popularidade de Obama, presidente democrata de dois mandatos que tinha uma popularidade incrível.  Ou seja, apesar do sucesso, os democratas aparentaram estar desgastados e o povo parecia desejar uma alternância de poder, fato este que é processo comum na política. Fazendo um paralelo com o Brasil, após muitos anos de presidentes (considerados) de direita, elegeram quatro vezes seguidas candidatos de esquerda, duas vezes cada um dele.  A população brasileira parece ter chegado ao limite de saturação de tais partidos e como resultado das últimas eleições (2014 e 2016) o PT perdeu no federal, em quase todos os estados e agora os partidos de esquerda tem menos prefeitos e vereadores.

Ou seja, a partir de dados, podemos constatar que, aparentemente, ouve um desgaste da imagem do partido e da esquerda como um todo. O futuro presidente Trump não era unanimidade nem mesmo entre os republicanos, mas seu posicionamento conservador, com demonstrações preconceituosas, xenofóbicas e agressivas, conquistou muitos votos e mesmo contrariando pesquisas, foi eleito presidente dos EUA.

Alguns discursos e promessas de Trump foram feitos evidentemente apenas visando conquistar votos, e ele se contradisse várias vezes durante tais discursos. Porém, note-se que, mesmo com contradições e radicalismos, ele foi capaz de representar os sentimentos de parte da população (afinal, ele venceu, então, ao menos, é o que se conclui).  

Cabe dizer também que a candidata opositora, Hillary Clinton, não gozava de muito prestígio, popularidade e afeição de grande parte dos eleitores, e não era tida por muitos como candidata descente/qualificada/adequada, mas ainda assim, recebeu votos só pela comparação com o Trump, não era uma questão de “que vença o melhor” era algo como “que perca o pior”. Essa situação de votar em alguém que não agrada, apenas que para que o outro perca é comum. Vários brasileiros também demonstraram e expressaram terem enfrentado isso nas eleições federais, estaduais e municipais.  O problema da falta de senso crítico, da escassez de bons políticos e do analfabetismo político é algo que partilhamos com os estadunidenses.

Uma das propostas de Trump é proibir a entrada de imigrantes muçulmanos nos EUA, para assim proteger o país contra o terrorismo. É uma medida praticamente impossível, não há declaração de religião no passaporte de ninguém…  As entrevistas e a emissão de vistos já são complicadas, o custo e o tempo de uma inspeção minuciosa são fatores que tornam inviável tal medida.  O que pode haver é um aumento no rigor para todos os imigrantes em geral, aliás, isso já foi feito em outras oportunidades. Outro ponto alto da campanha de Trump é sobre deportar imigrantes, em especial mexicanos. Outra “obra faraônica” economicamente inviável, pois o número de deportados teria que ser multiplicado por trinta. Pensemos: serviços básicos, normalmente desdenhados por americanos, principalmente em grandes cidades, ficariam desocupados, cidades do interior que recrutam estrangeiros teriam sua economia comprometida. O que provavelmente ocorrerá é um aumento da dificuldade para que mexicanos consigam visto ou Green Card.

Se ele fez propaganda e discursos que não se concretizarão (plena ou parcialmente) qual é o risco? Uma questão abordada muitas vezes pela filosofia política, o poder e seus efeitos na cabeça dos governantes. Colocar um xenófobo preconceituoso (declarado) no poder do maior exército do mundo e com armas nucleares a sua “disposição” é sempre um risco.

Em relação aos EUA e nosso país, o que sabemos é que o atual presidente em exercícios no Brasil, Michel Temer, já mandou telegrama, email e mensagens parabenizando e dando todo apoio a Trump, visando estabelecer relações ao menos neutras com o presidente norte-americano. Mas aqui vai mais um ponto que merece atenção:  Trump já demonstrou desinteresse em cooperação com o Brasil e desprezo a nossa cultura. Além disso, o (possível) candidato a presidente Jair Bolsonaro, em suas redes sociais também demonstrou apoio a Trump e está usando a candidatura do republicano como exemplo para a sua, dizendo que aqui também podemos ter a eleição de alguém que vença “lutando contra tudo e todos”, falando sobre si…

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O mundo parece sedento por mudanças. Os intolerantes têm cada vez mais seus pensamentos representados em políticos carismáticos e meramente caricatos. Alienados ficam cada vez mais espremidos entre extremistas, enquanto a aversão e adoração pelos políticos eleitos é ao mesmo tempo maior, o pensamento dicotômico se torna cada vez mais dominante, não há desconstrução, não há pensamento crítico, apenas desejo de vitória, é o “bem contra o mal”, o “meu contra o seu” e mesmo com todo esse cenário, o sistema parece se reinventar, se manter e esconder seus sinais de cansaço… Já dizem os conservadores republicanos: Deus abençoe à América.

 Category: FILOSOFEI

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