UMA BREVE INTRODUÇÃO AO EXISTENCIALISMO:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Historicamente, considera-se que os primórdios do existencialismo se encontram, de alguma forma, na obra de Soren Kierkegaard. Não raro, o legado literário do primoroso autor russo Fiódor Dostoiévski também é associado a essa corrente de pensamento. Mais tarde, outros nomes, como é o caso de Karl Jaspers, Gabriel Marcel e Martin Heidegger, também foram relacionados ao existencialismo, sendo que Heidegger, em especial, mostrou-se muito incomodado com o fato de sua obra e pensamento serem classificados como parte dessa corrente filosófica e ele chegou, inclusive, a redigir um texto intitulado “Carta Sobre o Humanismo”, no qual menciona a diferença entre sua filosofia e o existencialismo. Assim sendo, é preciso que haja certa cautela ao dizer que ele era, efetivamente, um existencialista, pois esse tipo de categorização pode ser precipitado.

Uma das ênfases da filosofia de Kierkegaard – que é tido como o primeiro filósofo existencialista, o “pai” dessa corrente de pensamento – é a questão da escolha, que está sempre presente na vida de qualquer indivíduo e da qual não há como escapar: “Ao indivíduo resta apenas escolher, decidir o que deverá fazer ou ser, sendo-lhe impossível fugir à liberdade dessa escolha”. (PENHA, 1990, p.26). E aquele que escolhe, que cria sua própria vida, é o homem enquanto “eu”, ou seja, em sua subjetividade, numa síntese de contrários, na qual ele vivencia suas peculiaridades contrastantes e que a todo instante se chocam com as estranhezas inevitáveis do mundo externo. Nesse sentido, mediante essa “categoria do eu” e a necessidade de tomar decisões, o filósofo dinamarquês considera que a razão seja inoperante e, portanto, não há sistema e/ou qualquer critério racional que alivie o fardo da escolha. Essa característica que tange seu pensamento filosófico seguiria sendo um dos pilares do existencialismo. Conforme Russell comenta em seu livro “História do Pensamento Ocidental”: “…O ponto de partida geral, de todo o movimento, parece ser este: o racionalismo, como filosofia, é considerado incapaz de propiciar uma explicação viável do significado da existência humana. Ao utilizar um sistema de conceitos, o racionalista faz descrições gerais que não captam o matiz específico da experiência humana individual.” (2017, p.393-394).

É possível imaginar o quanto é dificultoso definir de maneira objetiva em que consiste o existencialismo, afinal, há muitos diferentes pensadores e suas respectivas e divergentes obras, que são englobados nessa mesma corrente filosófica. Mas podemos dizer que o existencialismo, em suma, consiste numa “filosofia que trata diretamente da existência humana. Sua retenção está centrada na análise do homem particular, individual, concreto”. (PENHA, 1990, p.34).

De maneira geral, podemos dizer que, especialmente após a obra de Sartre, o existencialismo não apenas foi uma doutrina filosófica, mas também um verdadeiro estilo de vida. Inclusive, foi através de suas publicações que essa corrente filosófica se tornou mais notória e popular. Sartre, certa vez, escreveu a seguinte frase: “A existência precede a essência”. Isso significa que primeiro o ser humano existe, se encontra lançado no mundo e então, por intermédio de suas escolhas, irá construir sua essência. Conforme o fil[osofo francês escreveu: “O que significa, aqui, dizer que a existência precede a essência? Significa que, em primeira instância, o homem existe, encontra a si mesmo, surge no mundo e só po

O primeiro movimento do existencialismo é conscientizar todos os homens sobre o que ele é e fazer com que toda a responsabilidade de sua existência esteja sobre ele“. – Jean-Paul Sartre.

steriormente se define. O homem, tal como o existencialista o concebe, só não é passível de uma definição porque, de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo. (SARTRE, 1970, p.10). Ou seja: antes de haver essência, há alguém para criá-la através de escolhas que são movidas por uma condição fundamental à qual o homem está condenado: a liberdade. Conforme cita Russell (2017, p. 396): “O homem escolhe continuamente o seu destino. Não há vínculos com a tradição, nem com acontecimentos anteriores da vida do indivíduo. É como se cada nova decisão exigisse alguma espécie de entrega total”.

Nesse contexto, para o existencialista, não há natureza humana pronta e tampouco um poder divino que de alguma maneira nos defina. Também não há determinações e não há finalidades. O que há, de fato, é o indivíduo e sua inevitável liberdade que o leva, a todo instante, a tomar decisões que envolvem um senso de responsabilidade, uma vez que inevitavelmente irão gerar consequências diversas. Cada um é autor de si. É o próprio indivíduo que gera os frutos que colhe, já que que são suas próprias escolhas que o definem. Dessa forma, não há terceiros, não há outrem a quem se possa culpar pelo rumo que sua trajetória toma. Você mesmo é que modelou sua vida.

Há outro aspecto que é importante mencionar: de maneira geral, o existencialismo carrega a ideia de que, em algum momento de sua trajetória, o indivíduo é assolado pela angústia, Há outro aspecto que é importante mencionar: de maneira geral, o existencialismo carrega ou pela “náusea”, isto é, sente um certo desconforto em relação ao mundo e a sua situação.

É válido observar que a filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre serviu como pano de fundo para a valiosa obra feminista escrita por sua companheira, a célebre autora Simone de Beauvoir, que também acabou por se tornar um verdadeiro ícone intelectual, cuja herança literária é de imensa importância. Além disso, outro pensador que se destacou no contexto do existencialismo francês e deve ser lembrado é Albert Camus, o “filósofo do absurdo”, que explorou de maneira profunda e única a condição humana e que se consagrou como um dos maiores escritores da literatura mundial. Para ele, qualquer indivíduo pode, repentinamente, em algum instante de sua vida, ser assombrado pelo “por quê” e essa pergunta se apresentará a tal pessoa como uma inquietação constante que a levará a constatar que a trajetória existencial é essencialmente absurda, ou seja, carente de significado, ainda que o homem se esforce constantemente para lhe atribuir um sentido.

Abordar o existencialismo de maneira breve e resumida é uma tarefa um tanto desafiadora, afinal, cada um dos mencionados pensadores que colaboraram para que a história fosse escrita possui um legado filosófico vasto e rico, que requer cautela ao ser examinado. Assim sendo, caso você se interesse em estudar o existencialismo de maneira mais sofisticada, o ideal (e recomendável) é que se debruce nas principais obras que deram vida a essa corrente filosófica.

* Confira a música “Fumei Com Sartre no Jardim“, composta pela banda brasileira “Days Are Nights”. E não esqueça de escutar nosso podcast sobre o Existencialismo, no qual contamos com a participação ilustre do músico e professor Dennis Monteiro: https://www.youtube.com/watch?v=vvq8tCIupPQ

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é Um Humanismo? Paris, 1970. Disponível em: file:///C:/Users/julia/Downloads/Existencialismo%20reciclado(1).pdf. Acesso em: 13/02/2010.

PENHA, João. O Que é Existencialismo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1990.

RUSSELL, Bertrand. História do Pensamento Ocidental. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.

 Category: TEXTOS VARIADOS

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