UMA LEITURA POSSÍVEL SOBRE O ABSURDO DE ALBERT CAMUS: ‘O ESTRANGEIRO’:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi e Pedro Bracciali

PRIMEIRA PARTE: O ABSURDO DO MUNDO:

A intensidade conferida à narrativa de ‘O Estrangeiro’, pela construção de Camus, sugere ambientes vazios de paisagens e de interesse, sob um sol sempre excessivo a subir no horizonte, provocando ardência no rosto e ofuscando a visão. Seriam as lembranças trazidas da infância, sempre presentes na obra desse escritor, nascido pobre na Argélia, então colônia da França. São dias de melancolia e de um sentimento perene de falta de sentido no cotidiano banal de uma cidade de poucos atrativos. Mas o local, por si, não faz diferença. Fosse em Paris e o desinteresse seria o mesmo, porque o absurdo depende tanto do homem como do mundo: ele nasce desse confronto. É possível tomar o absurdo como possível e regular por ele a conduta e as suas consequências, se desejar, por essa forma, viver a absurdidade. A vida será até melhor por não ter sentido. Fala-se aqui de honestidade.

Sempre há algo a mais a ser descrito e menos a ser explicado no modo de pensar de Camus. Não se explica o mundo – por que haveria uma explicação para isso? Viver a falta-de-sentido-do-mundo é viver o absurdo em sua plenitude. É isso que experimenta Mersault, o personagem de O Estrangeiro, cuja edição original de 1942 foi prefaciada por Jean-Paul Sartre. Para desenvolver a filosofia do absurdo, teria mesmo de ser um talento na arte de escrever, como foi Camus. A velocidade com que ele tece suas frases curtas de indiferença já pode ser percebida nas primeiras palavras da narrativa:

Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames. Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem. O asilo de velhos fica em Marengo, a oitenta quilômetros de Argel. Tomo o autocarro das duas horas e chego lá à tarde. Assim, posso passar a noite a velar e estou de volta amanhã à noite. […]. Tomei o autocarro às duas horas. Estava calor. Como de costume, almocei no restaurante do Celeste. Estavam todos com muita pena de mim, e o Celeste disse-me “Mãe, há só uma”. Quando saí, acompanharam-me à porta. Estava um pouco atordoado e tive que ir à casa do Manuel para lhe pedir emprestados um fumo e uma gravata preta. O Manuel perdeu o tio, há meia dúzia de meses. Tive de correr para não perder o autocarro. Esta pressa, esta correria, e talvez também os solavancos, o cheiro da gasolina, a luminosidade da estrada e do céu, tudo isso contribuiu para que eu adormecesse no caminho. Dormi quase todo o tempo. E quando acordei, estava apertado de encontro a um soldado, que me sorriu e me perguntou se eu vinha de longe. Disse que sim, para não ter de voltar a falar. (1)”

Viver a falta-de-sentido-do-mundo é viver o absurdo em sua plenitude.

Ademais, no velório, o tédio a velar o defunto faz-lhe pegar no sono; mais tarde, no cortejo, o padre ia à frente do carro; em volta desse, os quatro homens; atrás o diretor e, fechando o cortejo, a enfermeira e o Sr. Perez. O céu estava já cheio de sol. “Não sei por que motivo esperamos tanto tempo antes de principiarmos a andar.”, diz Mersault. Ele iria conservar ainda algumas imagens desse dia: os gerânios vermelhos nos jazigos do cemitério, a terra cor de sangue que atiravam para cima do caixão da mãe, vozes, a espera diante de um café, a alegria quando o autocarro entrou em Argel e ele pensou que iria deitar e dormir durante doze horas.

A ausência de qualquer sentido nas coisas não se percebe quando o conjunto inteiro parece fazer sentido. Coloca-se algo num contexto estranho e a ausência de sentido no mundo se revela.

No dia seguinte, um sábado, coincidia de estar livre do escritório, e aproveitou para ir à praia. Lá, na água, encontrou Maria Cardona, uma antiga datilógrafa do escritório, que ele desejava há tempos. Julgava que ela também sentia o mesmo, mas despediu-se pouco depois, e não tiveram tempo para qualquer coisa. “Ajudei-a a subir para uma bóia e, neste movimento, toquei-lhe nos seios. […]. Estava um dia ótimo e, como de brincadeira, deixei cair a cabeça para trás, e descansei-a em cima dela. Não disse nada e eu deixei-me ficar assim: Tinha o céu inteiro nos olhos, e o céu estava azul e dourado. […] Perguntei-lhe se queria vir comigo à noite ao cinema. Voltou a rir e disse que tinha vontade de ver um filme com o Fernandel. […] Acariciava-lhe os seios. Para o fim do espetáculo beijei-a, mas mal. À saída, veio a minha casa. Quando acordei fora-se já embora. (2)”

Ao longo de todos os dias de uma vida sem brilho, o tempo nos carrega. Não existe essa forma de amor-destino, não existe destino algum no amor! A pétala de rosa, o marco da quilometragem ou a mão humana têm tanta importância quanto o amor, o desejo ou as leis da gravitação. Se bastasse amar, as coisas seriam muito simples. Quanto mais se ama, mais o absurdo se consolida. Porque o amor de que se fala aqui é adornado com as ilusões do eterno.

O homem absurdo incomoda – o homem absurdo se incomoda.

Diz-se também que Sísifo, estando prestes a morrer, imprudentemente quis por à prova o amor de sua mulher. Ele lhe ordenou jogar o seu corpo insepulto em plena praça pública. Sísifo se recobrou nos infernos. Ali, exasperado com uma obediência tão contrária ao amor humano, obteve de Plutão o consentimento para voltar à terra e castigar a mulher. Mas, quando ele de novo pôde rever a face deste mundo, provar a água e o sol, as pedras aquecidas e o mar, não quis mais retornar à escuridão infernal. (3)”. Foi necessária uma determinação dos deuses para Mercúrio apanhar Sísifo, o atrevido, pelo pescoço e, arrancando-o de suas alegrias, o reconduzisse à força aos infernos, onde seu rochedo estava preparado. O rochedo de Sísifo é o absurdo.

A vida vai-se assim: Não desejava ir como de costume almoçar no Celeste, porque fariam com certeza perguntas, e ele detestava que lhe fizessem perguntas. Preferia cozer ele próprio uns ovos, e comê-los assim mesmo, sem pão, porque já não havia nenhum, e porque não queria descer para ir comprar. Depois do almoço sentiu-se aborrecido, e vagou pela casa. O céu estava puro, mas sem brilho.

Maria veio buscar-lhe à noite, e perguntou-lhe se ele queria se casar com ela. Respondeu que tanto fazia, mas que se ela de fato queria se casar, estava bem. Quis então saber se ele gostava dela. Respondeu, como aliás respondera já uma vez, que isso nada queria dizer, mas que julgava não amá-la. “Nesse caso, por que casar comigo?”, disse ela. Respondeu-lhe que isso não tinha importância, e que se ela quisesse poderiam se casar. ”Depois passearam. Depois calaram-se.

Foi num dia quente na praia, quando Mersault estava na companhia de seu amigo Raimundo e de Maria, que houve um estranhamento e uma briga de facas com uns árabes vestidos de azul, por causa da amante que Raimundo esbofeteara; mais tarde ele retornou só ao local: o árabe puxou a navalha e, porque o sol brilhava intensamente, houve então um vacilo: “Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei então a disparar mais quatro vezes contra um corpo inerte onde as balas se enterravam sem se dar por isso.”

Há tanta gente matando neste mundo; implantaram na cabeça dessas pessoas que a finalidade-de-mundo é, para elas, matar por algum motivo: uma ideologia, algum sonho impossível – mas isso é uma mentira. Ainda é melhor viver sem um motivo. O estrangeiro, obra mais lida de Camus, foi escrito durante a guerra e editado em 1942. O escritor foi laureado com o prêmio Nobel de Literatura do ano de 1957, motivado “por sua importante produção literária que, com lúcida seriedade, ilumina os problemas da consciência humana em nossos tempos.”

SEGUNDA PARTE: O HOMEM ABSURDO

O Absurdo é a desproporção que existe entre a intenção e a realidade a qual se depara. O absurdo será tanto maior quanto maior for a distância entre os elementos dessa comparação. Se um homem virtuoso é acusado de um crime monstruoso, como cobiçar a própria irmã, o contraditório entre o que se acusa e os princípios de toda a sua a vida é ‘absurdo’. Há casamentos absurdos, desafios, rancores, silêncios, guerras e até acordos de paz. “Esses cenários mascarados pelo hábito tornam-se aquilo que são. Afastam-se de nós. Tal como há dias em que, sob o rosto familiar de uma mulher, encontramos como uma estranha aquela que amamos há meses ou há anos […] esta espessura e esta estranheza do mundo – é o absurdo. (4)” O absurdo não está nem no homem, nem no mundo, mas na sua presença comum. Semelhante luta presume a ausência total da esperança, a recusa contínua e a insatisfação consciente. Tudo o que destrói, escamoteia ou subtiliza estas exigências arruína o absurdo.

Seguiu-se a prisão de Mersault e interrogaram-lhe por várias vezes. O juiz quis saber se ele desejava um advogado, e ele respondeu-lhe que não. Por que seria absolutamente necessário ter um? Disse-lhe, antes de mais nada, que o pintavam como tendo um caráter taciturno e fechado. Depois calou-se, olhou-o, e levantou-se bruscamente da cadeira, dizendo: “O que me interessa é o senhor”. Instaurou-se assim, por vários dias, o processo do homem absurdo por inquisições e depoimentos das testemunhas que estiveram com Mersault desde a morte da mãe: foram ouvidos os servidores do abrigo, o dono do restaurante, os vizinhos e Maria Cardona. Questionaram-lhe por que razão mandara a mãe para o asilo; por que se mantivera calmo no dia do enterro; indagaram se ao menos o viram chorar. É de fazer sentir-se como alguém que entra num ônibus e todos os passageiros anônimos espiam o recém-chegado para lhe observar os ridículos.

O homem absurdo incomoda – o homem absurdo se incomoda. Um homem que se conscientiza do absurdo fica-lhe ligado para todo o sempre. Sem esperança e ciente disso, já não pertence ao futuro. Isso está na ordem natural das coisas. Que ele faça esforços para escapar ao universo de que é o criador. Um mundo que se pode explicar é um mundo familiar; num universo privado de ilusões e de luzes, o homem sente-se um estrangeiro.

UMA LEITURA POSSÍVEL SOBRE O ABSURDO DE ALBERT CAMUS: ‘O ESTRANGEIRO’

 Albert Camus morreu num acidente, em 4 de janeiro de 1960, aos 46 anos.

O procurador, então, muito sério e com uma voz autenticamente emocionada, apontou-lhe o dedo e articulou lentamente: “Meus senhores, um dia depois da morte da sua mãe, este homem tomava banhos de mar, iniciava relações com uma amante e ia rir às gargalhadas, num filme cômico.” (5) Levou um tempo a compreender por que diziam ‘a amante’. se para ele, ela chamava-se Maria. Por fim, o presidente do júri disse-lhe, de um modo estranho, que lhe cortariam a cabeça numa praça pública em nome do povo francês. Perguntou-lhe ainda se desejava declarar alguma coisa. Refletiu. Disse: “Não”. Foi então que o levaram. Recusou-se, pela terceira vez, a receber o capelão.

O homem quotidiano vive com finalidades, com a preocupação de futuro ou justificação. Ele avalia as possibilidades. Ainda julga que qualquer coisa na sua vida pode ser dirigida. Age como se fosse livre. Depois do absurdo, tudo fica abalado. Essa ideia do que <sou>, a maneira de agir como se as coisas tivessem um sentido, tudo isso se encontra desmentido de maneira vertiginosa pelo absurdo de uma morte possível. Pensar no amanhã, fixar um objetivo, ter preferências, tudo isso supõe a crença na liberdade. A morte está ali como única realidade.

Sentir-se estranho à própria vida para percorrê-la sem ilusões. O homem absurdo, voltado para a morte, sente-se desvencilhado de tudo. Essa independência é limitada como toda liberdade de ação, e construída com paixão, pois a paixão é o sentimento que caminha ao lado do absurdo. E a vida não possui nenhuma garantia sobre a eternidade, mas substitui as ilusões da liberdade, que param todas na morte. A disponibilidade divina do condenado à morte, diante do qual se abrem, numa madrugada, as portas da prisão, esse incrível desinteresse perante tudo, salvo a chama pura da vida, a morte e o absurdo são aqui – bem o sentimos – os princípios da única liberdade razoável: a que um coração humano pode sentir e viver.

Albert Camus morreu em 4 de janeiro de 1960, aos 46 anos. Retornava para Paris como passageiro no carro dirigido por Michel Gallimard, sobrinho de seu editor. Nesse dia, Camus deveria retornar de trem. Tinha o bilhete. O carro Facel Vega saiu da pista e bateu numa árvore na estrada ‘National 5’. Albert Camus morreu no local. Michel Gallimard veio a falecer poucos dias depois, num hospital. Janine, a esposa de Gallimard e a sua filha Anne sobreviveram ao acidente. O cachorro Floc desapareceu. Nos escombros do veículo foi encontrada a maleta de Camus com as primeiras provas de uma obra autobiográfica intitulada ‘O Primeiro Homem’.

A morte surgiu-lhe subitamente, não lhe concedendo o momento excepcional entre a consciência de uma morte iminente e os movimentos finais, em que se pode, enfim, experimentar a verdadeira liberdade das ações humanas. Quem alimentaria ilusões sobre a vida e esperança no futuro diante da morte irredutível? Assim também, mesmo no cárcere, Mersault experimenta essa liberdade; ciente de que, a qualquer momento, numa madrugada, seria preciso subir uns degraus para ir à guilhotina.

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Seguem alguns comentários sobre a obra “O Estrangeiro”, tomados alhures na rede, sem identificação dos respectivos autores, apenas para um registro de opiniões:

Mersault é um homem que vive uma vida letárgica rodeado de pessoas comuns, num lugar estranho e cuja sanidade se esvai como um pulso que cada vez vai perdendo a intensidade. A morte de sua mãe não lhe causa nada além de tédio.”

Tanto Faz. O que dizer dessa obra que tem um enredo simples e complexo ao mesmo tempo?

A inserção filosófica e psicológica que Camus maestralmente (sic) faz no romance lembra em muito a profundidade intimista dos romances de Sartre. No livro, é possível sentir, de fato, cada palpitação do coração do personagem, sentir o calor o sol, as passagens rápidas do tempo quando não estamos prestando atenção.”

Li ‘O Estrangeiro’ ainda adolescente e agora reli. Com outros olhos, com outra vivência. E a experiência foi ainda melhor. Mersault me pareceu ainda mais humano, mais próximo. Que coisa!

Este livro me atormentou um pouco… ou muito, não tenho certeza. Ainda estou digerindo. No início do livro senti uma certa aversão pelo protagonista, depois senti vergonha por ter me sentido assim com relação a ele. Depois fiquei buscando sentir empatia ou criar algum laço e quando não consegui nada disso me atormentei e me perguntei por que não era possível. Ao final, me deparei com um espelho terrível e com um conflito: a vontade de ser como o protagonista e o pavor de ser como ele. Acho que terei que ler esse livro mais vezes para que ele não persiga meus pensamentos.”

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Referências às citações:

(1) CAMUS, Albert. O estrangeiro, p. 41.

(2) CAMUS, Albert. O estrangeiro, p. 55/6.

(3) CAMUS, Albert. O mito de Sísifo, p. 113.

(4) CAMUS, Albert. O mito de Sísifo, p. 26.

(5) CAMUS, Albert. O estrangeiro, p. 124

(6) Prize motivation: “for his important literary production, which with clear-sighted earnestness illuminates the problems of the human conscience in our times”

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REFERÊNCIAS

CAMUS, Albert. O estrangeiro. Lisboa: UNIBOLSO, [197? ]. 160 p. (Biblioteca Universal nº 5). Tradução de António Quadros. Edição UNIBOLSO realizada por acordo com a Editora Livros do Brasil.

CAMUS, Albert. O mito de Sísifo: Ensaio sobre o Absurdo com um estudo sobre Franz Kafka. Lisboa: Livros do Brasil, [197-? ]. 176 p. (Enciclopédia nº 18). Tradução de Urbano Tavares Rodrigues. Com um estudo de Liselotte Richter, traduzido por Ana de Freitas.

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