A VONTADE E A RAZÃO:

By Acervo Filosófico

Por: Carmo Graziosi

Para o filósofo Sócrates, a moralidade depende do conhecimento. Ele dizia que todos os homens procuram o bem e evitam o mal, e que quando alguém pratica o mal, fá-lo exclusivamente por ignorância. É que, para Sócrates, não é possível que alguém que conheça o bem escolha justamente o mal.

Porém, sabemos que as pessoas praticam o mal mesmo sabendo distingui-lo do bem. Isso nos leva a concluir que não existe nexo entre a moralidade e o conhecimento, e que devemos buscar alhures o fundamento da ética. É aí que entra em cena a vontade. A vontade é a faculdade humana que permite a livre escolha entre o bem e o mal. Isso explica por que alguém torce para um time ruim de futebol. Por mais que a razão mostre que esse time não presta, e que nunca vencerá um campeonato, o torcedor insiste em apoiá-lo. Certamente não é por falta de conhecimento que o faz, mas simplesmente porque o quer, e para isso ele não precisa de nenhuma motivação racional.

Mas esse comportamento irracional não se restringe ao mundo dos esportes: ele afeta também a vida política dos cidadãos. O que faz com que alguns votem em partidos de esquerda e outros em partidos de direita? Muita gente se justifica com base em informações obtidas pelos meios de comunicação, pelas redes sociais ou em comícios. O que poucos fazem é questionar a fidedignidade dessas informações. Por exemplo, é comum ouvir certos ativistas políticos acusando os meios de comunicação de distorcer a verdade. Que os meios de comunicação podem distorcer a verdade quando lhes convém, isso é sabido. Mas e quanto às fontes de informação dos próprios acusadores? Por que essas fontes são mais confiáveis do que as outras? Se analisarmos isso de modo racional, concluiremos que nenhuma fonte de informação é totalmente confiável; e isso significa que qualquer decisão baseada nelas depende mais da vontade do que do conhecimento.

Isso tudo sem mencionar as discussões políticas que envolvem assuntos técnicos. A maioria da população não entende de ciência política, economia, direito e assuntos afins. Então, para poder formar suas opiniões políticas, dependem dos especialistas que estejam alinhados com a sua visão de mundo. Porém, se o especialista está alinhado, é pouco provável que o seu parecer seja imparcial, o que nos leva novamente ao problema da confiabilidade.

De qualquer forma, em alguém precisamos confiar; e por isso acabamos acreditando em uma pessoa não porque a conhecemos, mas simplesmente porque nela confiamos. Em outras palavras, acredita-se porque se quer acreditar. É a vontade sobrepujando o intelecto.

 Category: FILOSOFEI

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