DAS PAIXÕES (Thomas Hobbes, Leviatã):

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Este texto baseia-se no capítulo VI, da obra Leviatã, intitulado “Da origem interna dos movimentos voluntários vulgarmente chamados paixões; e da linguagem que os exprime”:

Nos animais existem duas espécies de movimentos que os caracterizam provendo-lhes singularidade: um é o vital e o outro é o animal. O primeiro é involuntário, como respirar, fazer digestão e outras funções do corpo. O outro, por sua vez, representa o falar, o andar, ou movimento dos membros, da maneira como foram antes imaginados pela mente. Há também a sensação que é um movimento surgido nos órgãos como consequência daquilo que se ouve, fala, vê e etc. E há também a imaginação que é definida como um “resíduo do primeiro movimento” e que é a primeira origem interna dos movimentos voluntários.

Na sequência, Hobbes define o esforço como um “pequeno início de movimento, no interior do corpo do homem”, que ocorre antes da manifestação da fala, luta, andar e etc. Quando este esforço vai na direção de algo, chama-se paixão (movimento de aproximação, sendo estas as coisas que os homens amam e que é sempre chamado de “bom”) ou chama-se apetite, embora este último termo esteja mais especificamente relacionado com desejos alimentícios (fome e sede) . Quando vai à direção contrária, chama-se aversão (movimento de afastamento, e sendo as coisas que os homens odeiam, e que, por sua vez, é sempre chamado de “mau”). Dentro deste referido contexto: “O desejo e o amor são a mesma coisa, salvo que por desejo sempre se quer significar a ausência do objeto, e quando se fala em amor, geralmente se quer indicar a presença do mesmo”. (HOBBES, 1979, p. 33). No caso do movimento contrário, este processo repete-se: a aversão ocorre na ausência do objeto e o ódio, em sua presença.

Há também uma terceira categoria das coisas: a do desprezo, que representa a imobilidade e que se refere ao que não é desejado, e nem tampouco odiado, sendo chamado de “vil” e “indigno”. O autor menciona que todos os desejos e aversões passam por modificações pelo fato de que o corpo está sempre em constante processo de transformações, de modo que: “É impossível que as mesmas coisas nele provoquem os mesmos apetites e aversões”. (HOBBES, 1979, p. 33). Além disso, Hobbes afirma neste trecho que é impossível que todos os homens sintam os mesmos tipos de desejo e aversão pelos mesmos objetos e também que “bom”, “mal” e “vil/indigno” não encontram-se na natureza dos objetos, mas apenas existem em relação à pessoa que os emprega conforme os referidos movimentos acima citados. Menciona-se também que há alguns apetites que nascem com o homem (como exemplo, Hobbes menciona o apetite pela comida) e há, porém, outros que são adquiridos por efeito da experiência.

Na língua latina existem as seguintes definições: “pulchrum”, que relaciona-se com o bem (significando amigável, belo, honroso, etc) e “turpe” que relaciona-se com o mal (cujas traduções podem ser feito, disforme, repugnante, etc). Tais significados exprimem aspectos ou disposições do bem e do mal sendo que há três tipos de bem, sendo respectivamente: como uma promessa (pulchrum), como um fim desejado (jucumdum), como um como meio (utile). O mal, por sua vez, possui certas espécie correspondentes aos tipos de bem: na promessa, é chamado de turpe, no efeito e no fim, molestum, desagradável e perturbador e como meio, inutile, inaproveitável e prejudicial.

Quando ocorre aparência ou sensação do movimento (aquilo que encontra-se dentro do homem, e que é causado por ações de objetos vindos de fora), há o que se chama “deleite” ou “perturbação do espírito”. Aquilo que provoca o deleite é chamado de jucumda porque ajudam e fortalecem o movimento vital. Ao contrário, aquilo que perturba-o é a molesta.

Um prazer ou deleite cuja origem é a sensação causada por um objeto presente, chama-se “prazer dos sentidos”, sendo que este termo engloba as onerações e xonerações existentes no corpo e aquilo que é agradável aos sentidos (aos olhos, visão, paladar, tato e audição). Há também o “prazer do espírito”, cuja origem é a “expectativa provocada pela previsão do fim ou consequências das coisas”. (HOBBES, 1979, p.34). Exemplo deste último tipo de prazer são a alegria e a tristeza.

Todas as paixões mencionadas possuem nomes diferentes conforme são consideradas. Dependerá, especialmente de quatro fatores que são citados nesta ordem: da maneira como uma sucede a outra, do objeto em questão, de muitas delas estarem em conjunto e da alteração da sucessão. Abaixo seguem alguns exemplos dos contrapontos que o filósofo apresenta (note-se que trata-se das mesmas paixões com certas variações de sentimentos, isto é, mudanças de graus ou intensidade e, consequentemente, alterações em suas respectivas nomenclaturas):

“Amor”:

– Pelas pessoas, no âmbito das convivências sociais: amabilidade.

– Pelas pessoas, mas apenas movido pelos prazeres:concupiscência natural.

– Por uma só pessoa, e quando se deseja ser amado de maneira exclusiva: paixão do amor (sendo que  quando este mesmo tipo de amor é acompanhado do medo de que não haja reciprocidade, chama-se ciúme).

“Magnanimidade”:

– Diante de perigos de morte ou ferimento: coragem.

– Uso de riquezas: liberalidade.

“Medo”:

– Quando desconhecido (não se sabe porquê e nem de quê): pânico.

– De “poderes invisíveis, inventados pelo espírito ou inventados a partir de relatos publicamente permitidos” (HOBBES, p. 35, 1979): religião.

“Apetite”:

– Quando relacionado com uma crença: esperança.

– Sem relações com uma crença: desespero.

Hobbes segue dando exemplos da alegria, tristeza, vanglória e outras paixões. No final desta parte, dedica uma atenção especial à deliberação, que seria um conjunto alternado de apetite, aversão, medo e esperança, e que surgem no espírito humano (sendo referentes à algo específico) até que uma ação seja praticada ou considerada impossível de ser realizada. Durante este processo, passam inúmeras consequências pelo pensamento. A deliberação não existi naquilo que já passou, uma vez que tal coisa não pode ser modificada, e ela opõe-se à liberdade. Ocorre na deliberação, a vontade, que é seu último apetite (da deliberação) ou aversão que antecede a ação ou sua omissão, sendo que nem todos os apetites fazem de uma ação algo necessariamente voluntário e sendo que “toda deliberação chega ao fim quando aquilo sobre o que se deliberava foi feito ou considerado impossível, pois até esse momento conservava-se a liberdade de fazê-lo ou evitá-lo, conformemente aos próprios apetites ou aversões”. (HOBBES, 1979, p.37). 

A vida não passa de movimento, e jamais pode deixar de haver desejo, ou medo, tal como não pode deixar de haver sensação“. (HOBBES, 1979, p. 39).

No final do capítulo, o filósofo menciona que as ações voluntárias tem sua origem tanto “na cobiça, na ambição, na concupiscência e outros apetites em relação à coisa proposta” (HOBBES, 1979, p.38), mas também em outras sensações como na aversão ou no medo. Ainda nesta mesma parte, Hobbes retoma um tópico anteriormente abordado nesta mesma obra (Leviatã): a linguagem. Suas diferentes formas seriam a maneira pela qual se exprime a paixão, sendo que tais formas diferem-se da expressão do pensamento através da linguagem. Algumas paixões são peculiares e suas expressões linguísticas variam, embora a maior parte das paixões possam ser expressa pelo especificamente pelo indicativo. Tais variações, podem ser, por exemplo: o uso do subjuntivo para deliberação, pois este indica uma suposição e uma consequência. Já o desejo e a aversão, se expressam através do imperativo.

A linguagem da vangloria seria optativa, e assim por diante. Hobbes afirma que “estas formas de linguagem são expressões ou significações voluntárias de nossas paixões” (HOBBES, 1979, p.38), embora certos sinais não o sejam pois podem ser usados por pessoas que possuam ou não possuam uma ou mais paixão. Por isso: “os melhores sinais das paixões atuais residem na atitude, nos movimentos do corpo, nas ações e nos fins objetivos que por outro lado sabemos que a pessoa tem”. (HOBBES, 1979, p. 38). Ainda no final destas últimas considerações, o autor reflete que a felicidade consiste num sucesso constante na aquisição daquilo que é desejado, e diz que não existe felicidade perpétua, uma vez que: “a vida não passa de movimento, e jamais pode deixar de haver desejo, ou medo, tal como não pode deixar de haver sensação. (HOBBES, 1979, p. 39). 

No parágrafo final, diz que o louvor é a forma de linguagem empregada quando estes almejam exprimir sua opinião da excelência de algo. Já o poder e a grandeza, são expressos pela exaltação. Por fim, apresenta a palavra grega “makarismós” que usada para exprimir felicidade, sendo que tal palavra não possui tradução específica, e assim, finaliza este capítulo. 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

HOBBES, Thomas. O Leviatã. Coleção “Os Pensadores”. São Paulo: Editora: Abril. 1978.

Crédito da imagem: John Michael Wright, oil on canvas, circa 1669-1670.

 

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