DIÓGENES DE SÍNOPE E OS MISTÉRIOS DA FILOSOFIA CÍNICA

By Acervo Filosófico

Por George Felipe Bernardes Barbosa Borges

Há muito que se dizer sobre a filosofia cínica e, em especial, sobre a figura de seu maior expoente, Diógenes de Sínope, seja para aqueles que não o conhecem, para os que o conhecem pouco ou para quem o conhece demais. Diógenes é sempre um mistério. Sob suas ações e observações intrépidas, ácidas e desconcertantes repousam vários princípios socráticos radicalizados pelo filósofo com o intuito de falsificar a moeda (παραχαράττειν τὸ νόμισμα) – metáfora cínica para as convenções e costumes socialmente aceitos, desejados e incentivados. Essa falsificação tem como objetivo atingir a felicidade, cujo conteúdo é a razão, a autossuficiência e a liberdade.

O primeiro elemento que contribui para o mistério que paira sob Diógenes é o modo como suas ideias foram transmitidas. Embora ele tenha escrito alguns textos (que infelizmente se perderam), como relata o doxógrafo Diógenes Laércio, estes não eram propriamente tratados de filosofia tal como vemos em outros filósofos da antiguidade, dedicados à uma exposição sistemática de conceitos e doutrinas. Por isso há quem defenda que o cinismo é uma corrente sem conceitos e princípios, tornando-se apenas um movimento cultural. Ainda sobre a escrita, é sabido que os cínicos não só escreveram como a revolucionaram, inaugurando um novo gênero literário, a Sátira Menipeia, usando elementos tradicionais da literatura para implodir o edifício da paideia grega.

O material que temos atualmente dos cínicos, apesar de fontes secundárias, captura bem o espírito da escola e de Diógenes. Os cínicos priorizaram a ação (ἔργον) em detrimento da palavra (λόγος). Não por acaso o registro de seus pensamentos é marcado por um estilo biográfico e epistolar, sempre escrito por terceiros – com ênfase nas famosas χρεῖαι, traduzidas para o português como “anedotas”, curtas histórias de cunho instrutivo. Esse modo de transmissão é misterioso por duas razões. O estilo anedótico biográfico confere à hermenêutica do leitor grande parte daquilo que o próprio pode extrair das observações filosóficas. Ler as anedotas e cartas cínicas é um exercício filosófico, histórico e literário. Diógenes elenca em breves frases e ações elementos caros que remontam o imaginário grego, de modo usá-los para contrastar com sua mensagem. Um exemplo disso é sua insistência em comer na Ágora (D. L. VI.58), um modo de desafiar as etiquetas dos atenienses. Além disso, o gênero anedótico também mistura a figura histórica de Diógenes com as lendas que se formaram ao longo do tempo. Quando olhamos para os registros trazidos em Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, a principal fonte da filosofia cínica, poucas são as informações que temos certeza da historicidade: que Diógenes deixou Sínope devido as moedas falsificadas e que ele foi sequestrado por piratas. Tirando algumas anedotas difíceis de sustentar, como uma das versões de sua morte, que afirma que Diógenes teria prendido voluntariamente sua respiração até falecer (D. L. VI.76), tantas outras são apenas verossímeis – é possível que sejam verdadeiras, mas não temos certeza absoluta. De todo modo até mesmo as anedotas improváveis, como a citada acima, trazem à tona elementos importantes do cinismo, como a ideia de que com disciplina pode-se adquirir controle até sob a morte, não ficando à mercê da deusa Tique. Em resumo eles privilegiam as ações e deixam em suspenso a exposição técnica. Aparentemente a filosofia cínica é uma não-filosofia por não adotar tais procedimentos comuns entre as filosofias ocidentais. Mas é nisso que consiste um dos principais ensinamentos e originalidade dos cínicos: eles olham para o mundo de uma forma diferente e o repensam em vários níveis, porque é a única maneira de enfrentar e buscar solucionar os mesmos e velhos problemas que há tempos perduram.

Conta-se que ele entrava no teatro apenas quando as pessoas saiam, isto é, quanto a peça acabava (D. L. VI.64), mas ainda assim, podemos destacar que Diógenes ia ao teatro.

O segundo elemento que podemos julgar como misterioso no filosofar de Diógenes é o uso do cômico como método filosófico. Podemos dizer que o riso/cômico, por si mesmos, já causam espanto. Há teóricos que afirmam que quando rimos perdemos o controle de nosso corpo, nos tornamos máquinas e espectadores e nossas próprias vidas. Há outros, com uma abordagem parecida, que ressaltam o caráter caótico do riso, sugerindo que este nada mais é do que um colapso fisiológico. Aristóteles foi um dos ilustres pensadores que se ocuparam do tema. Entre suas observações mais importantes sobre o riso e o cômico estão a constatação de que o “homem é o único animal que ri” (Sobre as partes dos animais, III.10) e que a comédia é tão importante quanto a tragédia, por tratar de temas universais (Poética, 1449a37-1449b1). Seguindo a linha de intelectualização do riso/cômico, há autores que estabelecem uma relação íntima entre a atividade racional e o riso. É como se o processo cognitivo para entender uma piada fosse similar ao processo para resolver uma equação matemática. Daí o valor filosófico do cômico/riso. Se utilizado corretamente pode ser uma importante ferramenta pedagógica para a emancipação racional e moral.

(…) Diógenes parece acreditar que os seres humanos, na ânsia de realizar e afirmar a sua natureza, acabaram distorcendo-a.

Assim, como dito, ao privilegiar a ação e curtas observações em detrimento de uma exposição teorética extensiva, Diógenes recheia seus ensinamentos com muito humor. Ele aposta todas suas fichas no impacto para transformar o seu interlocutor. Diógenes exagera, eleva o tom (D. L. VI.35), tal como se faz na comédia descrita por Aristóteles. Diógenes torna-se seu próprio alter ego usando o cômico para suas exortações. É a maneira mais eficiente que ele encontrou de entregar a mensagem e confirmar que seu interlocutor a entendeu, porque, antes de rirem de suas gracinhas é preciso compreendê-las. Diógenes propõe que seus interlocutores, ao decifrarem o mistério do riso também decifrem seus mistérios filosóficos – morais em sua totalidade. Desse modo também encontramos outra inovação na filosofia cínica de Diógenes: seu caráter sério-cômico (σπουδαιογέλοιον). A retórica cínica é séria em seu conteúdo e cômica em sua forma. Diógenes, como nenhum outro filósofo jamais fez, equilibra esses dois aspectos para ensinar e corrigir eticamente os interlocutores. Ele percebeu muito antes de Shakespeare que as pessoas suportam serem más, mas não suportam serem ridicularizadas. Por isso Diógenes zomba do pretensioso imperador, sugerindo que a única coisa valorosa que Alexandre pode lhe oferecer é uma tarde sem sombras (D. L. VI.38).

Por fim, o terceiro e mais polêmico mistério de Diógenes são os contornos paradoxais de sua filosofia. Tais paradoxos são em si mesmo ambíguos, sendo identificados apenas quando compreendemos o lema de Diógenes, a falsificação da moeda. O filósofo de Sínope não busca a negação da moeda, nem mesmo a sua substituição, mas, antes, busca lhe conferir uma nova identidade, cinzelando-a com sua marca. Em termos práticos isso significa que Diógenes se esforça para rearranjar a sociedade. Ele não prega que o destino dos seres humanos está condenado ao fracasso, nem que é preciso romper abrupta e absolutamente com a civilização. Nesse sentido, sem dúvida, um dos mais simbólicos e significativos paradoxos que Diógenes produz é a tentativa de harmonizar a natureza (φύσις) e as convenções (νόμος). Diógenes não nega as convenções em favor de uma vida selvagem, animalizada, de acordo com a natureza – embora a natureza seja muito valorizada, mas não nesse sentido. Diógenes não é um primitivista, anacoreta, niilista ou misantrópico.

Basta uma breve olhada nas anedotas cínicas que perceberemos que ele está sempre na cidade, envolvido com multidões, eventos públicos e sociais. Claro que o modo como Diógenes se embrenha nesses ambientes é diferente. E é precisamente nessa diferença que identificamos o paradoxo. Conta-se que ele entrava no teatro apenas quando as pessoas saiam, isto é, quanto a peça acabava (D. L. VI.64), mas ainda assim, podemos destacar que Diógenes ia ao teatro. Diógenes conhecia os consagrados poetas e citava-os com frequência, mas sempre fazendo trocadilhos com seus versos (D. L. VI.53). Ele não se apartava das tradições mais importantes para os gregos, mas as ressignificava através de suas ações. O objetivo ao fazer isso era reaproximar tais tradições e costumes com a própria natureza humana. Implícito nessa reaproximação é a admissão por parte de Diógenes que as convenções e tradições têm importância – ele elogia médicos, pilotos, filósofos –, mas também critica o comportamento humano em relação à alguma delas – a crítica aos adivinhos, intérpretes de sonhos e demagogos (D. L. VI.24). Ao que parece, o diagnóstico de Diógenes é: os seres humanos perderam em algum momento a conexão com sua própria natureza através de um uso irrefletido do νόμος. Dizendo de outro modo, Diógenes parece acreditar que os seres humanos, na ânsia de realizar e afirmar a sua natureza, acabaram distorcendo-a.

O modo que ele encontrou para corrigir a distorção é através de uma distorção ainda mais poderosa. Por isso vemos uma radicalização em sua retórica, a primazia da ação e o cômico como principal arma, dando origem a vários paradoxos. Em um mundo onde o excesso é regra Diógenes busca ao mesmo tempo exceder o próprio excesso e combinar essa desmedida com uma postura frugal – eis outro paradoxo! Não atoa Diógenes é identificado com os cães de rua e com mendigos, servindo de contrapeso para toda abundância cegamente buscada em nome de um ideal civilizatório vazio. E embora, por causa de seus mistérios e paradoxos, fosse taxado como um louco (D. L. VI.54) observava com lucidez: “O que é muito valioso não é vendido nem de graça e vice-versa” (D. L. VI.35).

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