MENCIONAR VOLTAIRE É CARACTERIZAR TODO SÉCULO DEZOITO

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Seu legítimo nome era François Marie Arouet, mas ele se tornou lendário pelo pseudônimo que adotou: Voltaire. Foi através desse pseudônimo que ele se eternizou como um excelente escritor, um notável filósofo e um dos principais representantes do Iluminismo, ao lado de Rousseau e Montesquieu.

Ele era uma figura polêmica, perspicaz e espirituosa. Era também, dono de um pensamento profundamente crítico e genialmente ousado. Suas produções literárias eram criativas, diversificadas, instigantes e também muito provocativas, chegando inclusive a fazer com que ele fosse exilado, preso e alguns de seus manuscritos fossem queimados.

No centenário da morte desse grande filósofo iluminista, o renomado e talentoso escritor Victor Hugo escreveu a seu respeito: “Mencionar Voltaire é caracterizar todo século dezoito”.

INFÂNCIA E JUVENTUDE:

Arouet nasceu no dia 21 de novembro de 1694, na cidade de Paris. Veio ao mundo com uma saúde tão frágil, que uma enfermeira do hospital em que nasceu chegou a lhe dar somente um dia de vida. Mas, felizmente, ela estava enganada. Arouet sobreviveu. Ele e seu irmão mais velho, chamado Armand, vivam numa família burguesa. A mãe, que se chamava Marie Marguerite Daumard, faleceu quando Voltaire ainda era criança – há fontes que mencionam que ela morreu durante o parto do filósofo. Seu pai era François Arouet, um próspero e admirável comerciante.

Voltaire estudou com jesuítas no Collège Louis-le-Grand e, a respeito dessa fase de sua vida, disse mais tarde que lá só aprendeu a língua latina e algumas bobagens. Mas, apesar dessa declaração, ele foi um aluno diferenciado, que se destacava dos demais por sua mente brilhante e espirituosa.

Quando chegou a hora de traçar seu destino profissional, para o desgosto do pai, optou pela Literatura. Voltaire, em sua juventude, apesar de ter sido aplicado em seus estudos, também gostava de sair e se divertir noite adentro. O pai, preocupado com esse comportamento do filho, chegou em duas ocasiões a afastá-lo de Paris, mandando-o inicialmente para Caen e em seguida para Haia, mas mesmo nesses novos lugares, Voltaire continuou suas aventuras noturnas e romances e, assim, em 1751, foi enviando novamente para Paris. Dois anos mais tarde, seria exilado da capital francesa por zombar do Regente…

O PRIMEIRO EXÍLIO:

Em 1717, após ter escritos versos ácidos e críticos dirigidos ao Duque de Orleans, Voltaire foi preso na Bastilha, onde ficou durante um período de onze meses. Foi nessa ocasião que ele abandonou seu nome de nascença e passou a utilizar o nome “Voltaire”. Depois desse período em que esteve preso, “Édipo”, uma tragédia de sua autoria foi reapresentada na cidade de Paris e o sucesso foi estrondoso. Voltaire recebeu um livro muito bom pela apresentação e esse dinheiro lhe foi útil para que pudesse organizar devidamente a sua vida.

No entanto, mais tarde, após o sucesso de Épido e depois de um certo período de liberdade, Voltaire, aos 32 anos, voltou mais uma vez para a Bastilha após ter desavenças com Rohan-Chanot, um membro da nobreza. Passou algumas semanas no local e, posteriormente, foi exilado na Inglaterra, país no qual ficou durante 30 meses.

A INGLATERRA:

Na Inglaterra, o brilhante escritor francês viveu um momento importante de sua vida. Em pouco tempo aprendeu a língua inglesa, estudou a cultura local e se familiarizou com os clássicos da literatura, da filosofia e da ciência do país. Dentre os vários autores que conheceu, ficou especialmente atraído pelas obras do filósofo John Locke e do físico Isaac Newton.

Voltaire ficou encantado e entusiasmado com a Inglaterra que, aos seus olhos, de maneira geral, era um país mais livre e mais próspero do que a França. Foi nesse período que escreveu o ensaio “Cartas Inglesas”, que se tornou uma de suas obras mais célebres. Nesse manuscrito, enaltecia o glorioso espírito de liberdade e a independência intelectual que vigorava no país. Além de enaltecer esses aspectos positivos da Inglaterra, ele os comparou com a França, pontuando alguns atrasos e (retrocessos) em sua terra natal.

Mas, apesar do fascínio pelas terras inglesas, o escritor retornou para Paris em 1729 e, sem que ele autorizasse, as “Cartas Inglesas” foram publicadas em seu país. O Parlamento de Paris ficou enfurecido com a obra e ordenou que os exemplares do livro fossem queimados publicamente no Pátio da Cúria Parlamentar. Percebendo a polêmica que havia causado, antes de ser novamente encaminhado pela Bastilha, Voltaire abandonou Paris e fugiu para Cirey, onde ficou no castelo da estudiosa Marquesa de Chatelet, com quem desenvolveu uma relação amorosa. Sua passagem por Cirey foi frutífera, pois na época em que viveu no local, escreveu importantes livros, como “A Morte de César”, “Os Elementos da Filosofia de Newton”, “A Metafísica de Newton” e outros. No castelo, Voltaire possuía até mesmo um laboratório para desenvolver pesquisas e estudos científicos.

O romance entre Voltaire a Marquesa durou em torno de quinze anos, talvez um pouco mais do que isso. Porém, eles foram para Paris em 1745 e depois de viverem alguns anos na cidade, ela se apaixonou pelo Marquês de Saint-Lambert e o relacionamento entra ela e Voltaire acabou chegando ao fim. Mas, apesar do rompimento, nesse tempo em que esteve em Paris, algo importante aconteceu na vida de Voltaire: em 15 de abril de 1746, o rei o nomeou como historiógrafo da França.

(…) “Ah, Voltaire é concidadão de todos os mortais que não são escravos”.

ALGUMAS DE SUAS MAIS CÉLEBRES PRODUÇÕES LITERÁRIAS:

Algum tempo após o fim de seu relacionamento, foram publicadas duas importantes obras de Voltaire, que são “Micrômegas” e “Zadig ou o Destino”. “Micrômegas” é um de seus escritos mais populares. Embora seja relativamente curto, é de grande profundidade filosófica. Na história desse livro, o planeta Terra é visitado por um ser gigantesco provindo de Sirius. Ao longo dessa sua jornada longa feita pelo extraterreno, muitas reflexões filosóficas se desenrolam. A leitura é leve e nos faz pensar bastante sobre vários aspectos de nossa realidade.

“Zadig ou o Destino” se tornou uma das obras mais conceituadas já feitas por Voltaire. Zadig é o personagem central da história e é um torno dele que toda a narrativa se desenvolve. Esse protagonista é um pensador babilônico de imensa sabedoria que passa por muitas aventuras desencadeadas pelo dinamismo de seu destino.

Além desses dois livros, Voltaire continuou escrevendo e produziu muitas outras obras e seus escritos costumavam conter críticas ácidas revestidas por um tom de humor e ironia. Ele criticou o absolutismo, a igreja, a superstição, e também a nobreza. Além disso, combateu intensamente a superstição, o fanatismo e a intolerância, valorizando a liberdade e enaltecendo a capacidade da razão. Por meio de seus escritos, Voltaire pretendia convidar as pessoas a pensarem por si mesmas e assim fazer com elas se desvinculassem de certas imposições e tradições que lhes eram impostas.

Quanto mais escrevia, mais popular Voltaire se tornava entre seus conterrâneos. Ele foi se tornando uma pessoa cada vez mais conhecida e recebia muitas cartas de seus leitores. Aliás, uma das pessoas que a se encantar com o filósofo foi Frederico II da Prússia. No ano de 1736, esse grande admirador de Voltaire convidou o gênio francês para ir à sua corte, localizada em Postdan, que fica no leste da Alemanha. O escritor francês, porém, naquela época, rejeitou o convite. Após voltar para a França, Voltaire não somente perdeu sua amada Marquesa para outro homem, como também a perdeu para a morte. Desolado, aceitou um novo convite do monarca e partiu para o Postdan. Mas, após passar três anos no local, acabou se envolvendo em desentendimentos que lhe geraram uma nova prisão, desta vez em Frankfurt. Após passar um tempo preso, foi solto e quis voltar para Paris, porém foi surpreendido pela notícia de que tinha sido exilado de seu país. Voltaire ficou um tanto deslocado, pensando em quais opções tinha e para onde deveria ir. Por fim, comprou uma propriedade chamada Les Délices e lá se instalou durante um tempo até que, em 1758, se mudou para Ferney, que se localiza na fronteira entre a Suíça e a França. Esse período de sua vida foi especialmente dedicado ao plantio. Certa vez, Voltaire chegou a dizer que plantou quatro mil árvores quando estava por lá. Aliás, foi em Ferney que viveu até os últimos anos de sua vida e essa comuna francesa, em 1878 passou, inclusive, a se chamar “Ferney-Voltaire”, em homenagem ao pensador.

Em 1755, Lisboa, a capital de Portugal, foi assolada por um terremoto muito forte que matou muitas pessoas. A catástrofe chamou a atenção de Voltaire, especialmente quando ele foi informado de que o clero francês estava dizendo que o terremoto era para que as pessoas pagassem por seus pecados. Ele então publicou um poema a respeito disso e Rousseau, outro grande pensador francês, que foi um dos maiores nomes do Iluminismo, deu uma resposta (um tanto incomoda ao poema). Esse conjunto de acontecimentos inspirou Voltaire a escrever em apenas três dias aquele que talvez seja seu mais célebre livro, que é “Cândido ou o Otimismo”. Este conto filosófico de Voltaire provavelmente é até os dias de hoje um dos mais lidos no mundo todo. A narrativa desse livro nos conta sobre a vida de Cândido, que após cometer o erro de beijar sua prima, vaga de um lugar para o outro, vivendo as inconstâncias de sua existência e conhecendo e se relacionando com várias pessoas diferentes. A história, é claro, tem um pano de fundo bem filosófico e profundo. Já foi traduzido em vários idiomas e serviu de inspiração para inúmeros outros autores que sucederam Voltaire.

Dentre sua vasta e importante produção literária, o “Dicionário Filosófico” merece destaque, pois ele é considerado o primeiro livro de bolso da história. O lançamento dessa edição portátil, além de inovador, foi muito positivo, pois as pessoas podiam carregá-lo facilmente com elas e dessa forma o conhecimento e a leitura poderiam ser obtidos de uma forma acessível e simplificada. Ademais, essa publicação era uma forma de instigar as pessoas a fazer uso da razão, de despertar nelas o senso crítico e de levá-las a questionar o sistema vigente. Assim como ocorreu com “Cartas Inglesas”, houve uma ocasião em que um exemplar do dicionário chegou a ser queimado. Ele escreveu vários outros livros importantes como, por exemplo “A Princesa da Babilônia”, “Tratado Sobre a Tolerância”, “O Homem dos Quarenta Escudos” e vários outros.

ELE NOS PREPAROU PARA A LIBERDADE:

Aos oitenta e poucos anos, Voltaire adoeceu e quando tinha oitenta e três decidiu ir para a capital francesa, ainda que seu médico o tivesse alertado sobre as possíveis complicações que a viagem poderia causar a sua saúde. Mas o filósofo estava disposto a seguir sua vontade e assim foi feito: dirigiu-se para Paris, onde foi muito bem recebido e, logo no dia seguinte de sua chegada, recebeu mais de trezentas pessoas em seus aposentos, dentre as quais, curiosamente estava o brilhante Benjamin Franklin, que levou seu filho para ser abençoado pelo genial escritor e pensador francês. Voltaire teria colocado suas mãos em cima da cabeça do menino e dito para que o jovem se dedicasse a “Deus e à Liberdade”.

Ainda nesse período no qual esteve em Paris, escreveu uma frase interessante que foi entregue ao seu secretário, assinada em 28 de fevereiro de 1778: “Morro adorando a Deus, amando meus amigos, sem odiar meus inimigos e detestando a superstição”.

Voltaire faleceu no dia 30 de maio de 1778. A sepultara eclesiástica foi recusada ao filósofo e seu corpo foi levado por amigos até Scèllières, onde foi enterrado. Porém, em 1791, Luís XVI foi forçado a pedir para que os restos mortais de Voltaire fossem encaminhados para o Panteon. Assim aconteceu e os restos mortais do gênio francês foram escoltados pela capital francesa, acompanhados por uma multidão de pessoas. No carro funerário, constava a seguinte inscrição: “Ele deu à mente humana um grande impulso; ele nos preparou para a liberdade”. Conta-se que as pessoas que acompanhavam o corpo do filósofo entoavam o seguinte canto:

Que os nossos cantos de alegria acompanhem as cinzas do mais ilustre dos franceses. Ah, Voltaire é concidadão de todos os mortais que não são escravos”.

Em sua sepultura, foram escritas apenas as palavras “Aqui jaz Voltaire”.

LEGADO E IMPORTÂNCIA:

Certamente, Voltaire foi um dos homens mais brilhantes que já existiu e, até os dias de hoje, seus escritos, em vários aspectos, continuam sendo muito importantes.

A produção literária atemporal deixada por ele é extensa, contabilizando um total de mais de 70 obras, escritas nas mais variadas formas literárias, como, por exemplo, ensaios filosóficos, peças de teatro, romances, poesias e cartas.

Por meio de suas abordagens críticas e de sua escrita atraente, Voltaire instigou seus contemporâneos, convidando-os a pensar de maneira mais crítica a respeito de vários aspectos de seu cotidiano. E a herança literária deixada por este magnífico filósofo francês permanece tendo este mesmo poderoso efeito de conduzir os leitores a refletirem de maneira mais profunda sobre inúmeras questões que fazem parte da existência.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

DURANT, Will. A Filosofia de Voltaire. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

PIMENTA, Jussara Santos. Voltaire: O Versejador, o Literato, o Comunicador. PUC – Rio. Revista Eletrônica UFSJ, 2002.

RUSSELL, Bertrand. História do Pensamento Ocidental. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.

 

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