A FELICIDADE SEGUNDO EPICTETO:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi (biografia: Carmo Graziosi)

“Considera a tua vida merecedora de valor”. – Epicteto.

Aspectos Biográficos:

Epicteto nasceu por volta do ano 50 d.C. em Hierápolis, na Frígia. Foi levado como escravo para Roma e ficou ali a serviço de Epafrodito, um rico e influente liberto (ex-escravo) do imperador Nero. Com autorização de Epafrodito, Epicteto começou a estudar filosofia com o estoico Musônio Rufo. Após a sua libertação, Epicteto começou a dar suas próprias aulas em Roma. Quando o imperador Domiciano decidiu expulsar os filósofos de Roma (em 89 ou 94 d.C.), Epicteto e seus alunos – dentre os quais havia proeminentes membros de famílias nobres – transferiram-se para Nicópolis, no Epiro. Lá ele continuou a ensinar até a sua morte. Segundo uma fonte tardia, ele chegou a se encontrar com o imperador Adriano. Morreu por volta de 138 d.C.

Epicteto era manco. Segundo a maioria das fontes, seu mestre Epafrodito teria quebrado a sua perna, sem que ele manifestasse o menor sofrimento com a dor (atitude estoica). Vivia na pobreza e não se casou; mas ao que parece adotou o filho de um amigo pobre, e o criou com a ajuda de uma ama-de-leite. Não escreveu nada, mas seu discípulo Arriano anotou suas aulas. Dessas anotações, chegaram até nós o Manual e os quatro primeiros livros das Diatribes. Epicteto é um dos mais influentes representantes do estoicismo, e sua filosofia trata sobretudo de questões éticas.

“Por um revés ou um deslize, perde-se um progresso ou o conserva”.

O Manual da Felicidade:

Parte da filosofia de Epicteto encontra-se no “Encheiridion (manual) de Epicteto”, no qual seu aluno e discípulo Arriano compilou uma série de preceitos ensinados pelo mestre, que visam conduzir qualquer indivíduo à felicidade. O neoplatonista Simplício da Cilícia menciona em seus escritos uma carta de acordo com a qual o objetivo do manual (encheirídion) é não apenas afetar as pessoas através de suas palavras, mas levá-las, de fato, a praticar seus conteúdos em suas, para que possam libertar suas almas. Ainda de acordo com Simplício, qualquer um que seguir tais preceitos será “genuinamente feliz”. Vejamos, então, algumas sabedorias contidas no manual. E claro, indicamos a todos a leitura integral do livro.

1. “Das coisas que existem, umas são encargos nossos, outras não”.

Devemos compreender que há coisas na vida que estão sob nosso controle e outras que não estão, ou seja, nem tudo depende de nós e há muita coisa que simplesmente não podemos mudar. Tal passagem, lembrou-me de uma frase certa vez escrita por outro estoico, Sêneca: “Aquilo que não se pode mudar, deve-se suportar“. Epicteto diz que justamente pelo fato de que nem tudo é encargo nosso, seria tolice querer, por exemplo, que as pessoas não morressem ou, então, que um servo não cometesse faltas. O filósofo escreve: “Exercita o que tu podes”. A reflexão sobre o mundo e o autoexame, tendem a levar-nos a constatação desse fato e, como consequência, tendem a gerar bem-estar.

2. “As coisas não inquietam os homens, mas a opinião sobre as coisas”.

Segundo Epicteto, não existem coisas desagradáveis ou agradáveis, em si mesmas, mas o que há é uma opinião a respeito delas, isto é, uma determinada maneira de interpretá-las. Em tal contexto, o filósofo diz que a morte, por exemplo, nada tem de terrível em si mesma, mas a opinião sobre ela (de que é algo terrível) é que inquieta o ser humano. Nesse contexto, Epicteto ainda escreve: “Não é o acontecimento que oprime, mas a opinião sobre o acontecimento”. Portanto, é provável que se exercitarmos essa sabedoria, alterando nossa perspectiva a respeito de certas coisas, possamos viver de uma maneira mais confortável.

3. “Não busques que os acontecimentos aconteçam como queres, mas queira que aconteçam como acontecem, e tua vida terá um curso sereno”.

Esse ensinamento propõe a aceitação de alguns fatos que inevitavelmente nos assolam, e se relaciona com o primeiro tópico sobre o qual discorremos, pois o curso de muitas coisas da vida não depende de nós e, então, consequentemente, não acontece da maneira como desejemos/esperamos, pois há diversos fatores e circunstâncias variadas que tangem o rumo dos acontecimentos. Compreender e aceitar esse fato, tende a proporcionar certo conforto existencial e evitará muita frustração surgida de expectativas excessivas. Em essência, essa sabedoria sugere que talvez não seja muito vantajoso nos entregarmos tanto a esperanças, e acontecimentos futuros que não estão sob nosso controle, pois se o fizermos, certamente, em algum momento, teremos muitas decepções.

4. “Em uma viagem marítima, se saíres para fazer provisão de água quando o navio estiver ancorado, poderás também pegar uma conchinha e um peixinho pelo caminho. Mas é preciso que mantenhas o pensamento fixo sobre o navio, voltando-te continuamente”.

Essa sabedoria centra-se na questão da concentração. Qualquer atividade e/ou relacionamento da vida exige um grau de empenho, entrega e dedicação. E para que nos mantenhamos focados e determinados, temos de ter cautela com possíveis distrações que possam, por ventura, desviar nossa atenção daquilo em que estamos focados. Muito embora as distrações sejam parte da vida – e até mesmo possuam sua relevância -, é necessário que saibamos quais são as nossas principais obrigações e em quais circunstâncias podemos ou não usufruir-nos dos divertimentos. Por isso, aqui, é preciso que haja a prático constante do autoconhecimento – já era tão valorizado por Sócrates (e claro, por muitos outros sábios também). Conforme constava numa inscrição do Oráculo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”.

5. “Já és um homem feito. Se agora fores descuidado e preguiçoso e se sempre fizeres adiamentos (…) não perceberás que não progrides”.

Nesta passagem, Epicteto lembra que a vida de cada um é merecedora de valor. As tarefas que a trajetória existencial impõe são diversas, algumas desejáveis e outras são. Algumas são prazerosas, outras são árduas. Mas é preciso ter força e competência para cumprir nossas atividades. É necessário vencer a preguiça, se firmar na vida e encarar com disciplina as lutas que surgem pelo caminho.

Referências Bibliográficas:

Manual de Epiteto: https://drive.google.com/file/d/1YYUJJNLmQLrQtkSw8g9lJKUe4Yzrmw0C/viewe

LEBELL, Sharon. A Arte de Viver. Rio de Janeiro: Sextante, 2018.

 

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