A TRÁGICA E ILUSTRE VIDA DE HIPÁTIA DE ALEXANDRIA, A FILÓSOFA EGÍPCIA

By Acervo Filosófico

   Por: Juliana Vannucchi

Hipátia nasceu em aproximadamente 370 d.C., na próspera cidade de Alexandria, localizada no Egito, no delta do Nilo, e que foi fundada pelo conquistador Alexandre, o Grande, em aproximadamente 330 a.C.. Esse local foi um grandioso polo cultural do mundo antigo e abrigou uma biblioteca muito conhecida, chamada “Biblioteca de Alexandria”, que abrigava um acervo extenso sobre temas bem diversificados. Hipátia era filha de um homem chamado Theon, que foi um importante e respeitado matemático, astrônomo e filósofo de Alexandria e que, certamente, teve grande influência no desenvolvimento intelectual da filha. Ela, inclusive, contribuiu com alguns livros escritos por seu pai,  embora se acredite que ela mesma tenha escrito livros de sua própria autoria. Infelizmente, esses supostos escritos se perderam com o tempo, ainda que geralmente se considere que alguns conhecidos comentários sobre matemática e sobre alguns matemáticos como Euclides e Ptolomeu, tenham sido escritos por ela.

Hipátia se aproximou muito do Neoplatonismo e do Neopitagorismo, duas correntes de pensamento que reacendiam estudos sobre a filosofia Platão e do pré-socrático Pitágoras. Além disso, aparentemente, ela também nutriu interesse pela obra do filósofo Plotino, embora não haja certeza sobre isso. Conta-se também que, embora tivesse essas preferências a enfoques filosóficos, era capaz de comentar também sobre as obras de outros filósofos. Além desses conhecimentos filosóficos, era também extremamente hábil com os números e tinha uma afinidade impressionante com a matemática.

 

Recebia alunos de várias regiões e que (conforme as cartas de seu aluno e discípulo Sinésio) dava aulas públicas sobre Platão e Aristóteles. Era afetiva, dedicada e muito admirada por sua sabedoria e por suas atitudes: “Ela era uma professora respeitada e eminente, era inclusive, carismática e amada de seus alunos (como por exemplo, por Sinésio). Temos provas de que era considerada bonita fisicamente e que usava trajes acadêmicos distintos, que ensinava não apenas matemática, mas também filosofia e que dava palestras públicas e pode ter exercido também algum tipo de cargo público.” (tradução livre. Fonte: DEAKIN,  Michael. The American Mathematical Monthly, March 1994, Volume 101, Number 3). Aliás, já que tocamos no nome de Sinésio, vale mencionar a título de curiosidade que através de cartas trocadas entre o bispo e a filósofa, sabemos que Hipátia teria criado um instrumento científico que, de acordo com a descrição, se assemelha muito ao que hoje conhecemos como sendo o hidrômetro. Ela também teria desenvolvido outros tipos de equipamentos além desse, como, por exemplo, um astrolábio. Ademais, sabemos que as aulas ministradas por Hipátia eram frequentadas tanto por alunos pagãos quanto cristãos. Além disso, parte de seus alunos eram pessoas de boa condição financeira, muitas vezes próximas de membros do governo. E ela não só ministrava aulas, como também dava palestras sobre temas diversos, sendo que muitas vezes realizava essas atividades em locais públicos, ainda que existam relatos de que também dava aulas em sua própria casa. Hipátia era, aliás, muito admirada e querida por seus alunos, que tinham um grande respeito por ela.

Pelo que se sabe, Hipátia de Alexandria conservou sua virgindade até o final de sua vida. Um fato interessante é que, certa vez, ao ser questionada sobre o porquê de nunca ter se casado, ela prontamente respondeu que era casada com a verdade. Há uma outra história sobre Hipátia que se tornou bem conhecida. Ela era uma mulher inteligente, carismática e também muito bela. Certa vez, um de seus alunos acabou se apaixonando por ela e Hipátia, sabendo dos sentimentos do rapaz, numa ocasião, entregou a ele um pano sujo com seu sangue menstrual, perguntou a ele se ele gostava daquilo e garantiu que ali não havia nenhum tipo de beleza. 

Hipátia de Alexandria - Pensamento e vida.

Gravura feita por Elbert Hubbard, 1908.

Outra situação que marcou muito a história de Hipátia de Alexandria é sua morte, que foi imensamente trágica e violenta. Em 415, no mês de março, ela estava andando pelas ruas de sua cidade natal, quando, de repente, em plena rua, foi abordada por um grupo de cristãos que a levaram para dentro de uma igreja, na qual Hipátia foi despida e cruelmente torturada, tendo seu corpo dilacerado e despedaçado com pedaços de cerâmica. Após essa brutalidade, as partes que restaram de seu corpo foram atiradas numa fogueira. Esse terrível ato teria sido motivado por questões religiosas e políticas.

Embora não tenhamos informações vastas e precisas sobre sua vida e seus feitos, o que sabemos a respeito de Hipátia é suficiente para que a consideremos como uma das mulheres mais célebres de toda a história. Mesmo com a carência de detalhes sobre sua vida e sobre suas possíveis obras, o nome de Hipátia de Alexandria atravessou o tempo e se tornou lendário. Ela continua sendo muito influente e existem até mesmo revistas feministas com o seu nome. Hipátia também serviu de inspiração para alguns pintores e houve até mesmo uma adaptação cinematográfica sobre a vida dessa ilustre mulher. Ela se tornou mais uma personagem lendária na história, cujos conhecimentos, pensamentos e capacidades, ao mesmo tempo em que impressionaram e cativaram alguns de seus contemporâneos, também foram alvo de intolerância por outros. Atualmente, a grande pensadora de Alexandria é vista como protagonista de uma história deslumbrante que a imortalizou como uma das mulheres mais incríveis que já existiu. Se houver interesse em aprofundamento de pesquisa, indicamos a Suda, que é uma enciclopédia do século X, e constitui uma das mais antigas e importantes fontes sobre a célebre Hipátia de Alexandria. Para fins de aprofundamento, sugerimos a leitura da obra “Hipátia de Alexandria”, da autora Maria Dzielska e dos relatos do historiador Sócrates, o Escolástico. Também indicamos a leitura das cartas de Sinésio, que podem ser acessadas através deste link: http://www.livius.org/sources/content/synesius/

No YouTube também é possível encontrar na íntegra o filme Ágora, que narra a história de Hipátia de Alexandria. Abaixo, segue o link para acesso: https://m.youtube.com/watch?v=OD2VWJ97Fxg

REFERÊNCIAS:

https://www.google.com.br/amp/s/www.publico.pt/2009/12/30/culturaipsilon/noticia/o-espelho-de-hipatia-248062/amp. Acesso em: 28/03/2018.

https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Hipátia. Acesso em: 25/03/2018.

http://www.livius.org/sources/content/synesius/. Acesso em: 31/03/2018.

CABECEIRA, Ana Clara da Silva. A Vida de Hipátia de Alexandria: Representação de Gênero na Antiguidade Tardia. Universidade de Brasília, 2014.

DEAKIN, Michael. Hypatia And Her Mathematics. In: The American Mathematical Monthly, Volume 101, Number 3. Australia: Monash University, 1994.

GOMES, Vanessa. A Vida de Hipátia de Alexandria. <http://mulheresnamatematica.sites.uff.br/wp-content/uploads/sites/237/2018/06/A-Vida-de-Hip%C3%A1tia-de-Alexandria.pdf> Acesso em 25/09/2019.

<file:///C:/Users/julia/AppData/Local/Temp/230301-70350-1-PB.pdf> Acesso em 25/09/2019.

SERBAN, Anne. Hypatia Of Alexandria. <http://kobotis.net/math/MathematicalWorlds/Fall2016/131/Biography/Hypatia.pdf> Acesso em 22/09/2019.

OLIVEIRA, Loraine. Vestígios da Vida de Hipácia de Alexandria. <file:///C:/Users/julia/AppData/Local/Temp/230301-70350-1-PB-1.pdf> Acesso em 22/09/2019.

COELHO, Alexandra Lucas. O Espelho de Hipátia. https://www.publico.pt/2009/12/30/culturaipsilon/noticia/o-espelho-de-hipatia-248062> Acesso em 25/09/2019.

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