OS SONHOS DE SÓCRATES

By Acervo Filosófico

Por: Antonio Alves

I

Exausto e faminto por conta da longa viagem, Sócrates, sentou-se ao pé de uma grande árvore. Há poucos metros, a sua frente, encontrava-se o seu objetivo e o motivo por ter se posto a viajar: o Oráculo de Delfos. Não era a primeira vez que estivera ali, então, nada era novo, salvo uma única diferença que foi também o motivo de intercorrências com seu daimon: era a primeira vez que fazia sozinho tão longa viagem. E como foi difícil convencer Xantipa de que não era uma opção a companhia de Aristipo. Era preciso ao menos uma vez, seguir sozinho, ainda que batesse os pés para explicar a ela que não estaria sozinho, mas guiado sempre pelo seu daimon. No fundo não adiantou, partiu de cara virada com a mulher, sabia que era difícil convencê-la, aliás, era ela o seu maior treinamento: ele sabia que se pudesse mudar a opinião de Xantipa a respeito de qualquer discussão filosófica, poderia facilmente mudar a opinião de qualquer outro. Depois de anos e anos com intimidade com uma mulher, o amor passa a ser mera loucura entre os constantes espasmos de reflexões lógicas e racionais. Então, deixa-se de viver o amor e passa-se a questioná-lo. Sócrates sabia que viveria melhor com sua mulher se não fosse tão bom orador e questionador, mas nada lhe dava mais entusiasmo que falar e combater discursivamente. Sua vida não teria valor sem essas coisas e eram elas, dons de poucos, enquanto mulheres, todos pareciam ter, inclusive, muitas vezes, mais do que uma. Mas sempre que tomado por esses pensamentos, colocava-se ligeiro no lugar de Xantipa. Ela não tinha culpa de nada e além do mais, ela era sua responsabilidade e seu dever. Deixá-la seria como abandonar a filosofia, seria como fugir de uma lei. Que desgraça poderia ser maior para a vida e honra de um filósofo?
Ele queria perguntar para o Oráculo, não sobre seu futuro ou de seus conhecidos, nem ao menos queria saber sobre sua inteligência ou sobre suas discussões. Na verdade, ele queria saber sobre o futuro do mundo, pois já há algumas noites, antes de partir de viagem, sonhava com uma Atenas centenas de vezes mais populosa. Nesse sonho as pessoas se espremiam entre si ao andar pela cidade, sem nenhuma ordem e totalmente desorganizada. Descontroladas, as pessoas gritavam umas com as outras. No sonho ele também podia ver que as casas haviam se multiplicado, e do alto de uma montanha olhava para a cidade, porém não conseguia ver o seu fim. O horizonte era tomado por construções e mais construções, e, ainda dentro da estranheza e da frenezi dessa quimera percebia que aos poucos essas construções começavam a se desmoronar e se revelavam cavaleiros armados a perseguirem com fúria as pessoas da cidade. Matavam sem nenhum receio. De súbito, começava a ouvir trotes que vinham pelas suas costas, como se a montanha em que estava a observar toda a cena tivesse se tornado apenas um obstáculo simples. Daí virava-se para avistar o cavalo e junto com o cavaleiro montado já estavam bem próximo a ele e prontos para goleá-los de morte. Então, acordava aflito e assustando Xantipa que logo lhe acalmava:
“Acalme-se, o único cavalo que há aqui sou eu. Sou sua potra”. Então, ela punha-se a amá-lo a fim de promover-lhe a calma.
De manhã, depois desses sonhos, Sócrates acordava cansado. Não sabia se era pelo amor cavalar que sua mulher lhe entregava ou pelos anseios dos sonhos que lhe afligiam. Daí então que se decidiu por ir até Delfos.

II

A pítia dançava com delírio sobre a pneuma. Proferia versos estranhos e depois, cansada, se jogava ao chão. Ali ficava por poucos minutos e repentinamente, como se alguém lhe tivesse jogando água fria levantava rápida e voltava a dançar. Sócrates se aproximou e abruptamente a pítia lhe encarou dos pés a cabeça. Os olhos pintados de preto fitavam-lhe a alma, eram sérios demais para não terem sidos inspirados ou forjados por um deus, isso era ótimo, pois assim era possível confiar. A pítia era a cara da justiça: não saberia mentir e se constituía apenas como um corpo intermediário para dar voz ao deus Apolo.
“Que queres tu dessa vez, Sócrates?”
“Vim para promover a catarse de um sonho que me aflige”
“Tire suas roupas e entre nu em meio à pneuma” ordenou ela que também fez o mesmo. “Agora, Sócrates, ponha-se a andar em círculos, basta me seguir” ela começou então a andar e ele a seguia no mesmo ritmo.
Daí por diante a voz da pítia ganhou outro tom. Era uma voz masculina, porém suave e calma. A pneuma que antes parecia quente tornou-se fria. O vento que antes agitava as folhas das árvores, agora se acalmara e os pássaros que antes cantavam, agora silenciaram.
“Conte-me o mal que lhe aflige Sócrates. É sempre bom recebê-lo. Seu coração é puro e a ti sinto-me confortável para ir além e a dizer mais do que de costume digo aos outros homens que aceito atender. Enquanto eles me vêm com perguntas sobre a guerra, a política e o dinheiro, tu sempre me impressiona com suas indagações excêntricas, e se eu sou para tu um deus, saiba que de onde estou e vivo, tu não me és muito diferente, excluindo apenas nossos atributos de potência e as nossas capacidades opostas e diferentes. Mas enquanto tu te deleitas com minhas lendas, minhas feitorias e meus milagres, eu também me deleito com as suas palavras, atos e virtudes”.
“Por Zeus, Apolo! que poderia eu dizer para retribuir tão doces palavras? Sei que agora mesmo grita meu daimon: fique calado, fique calado. Vocês, digo, os deuses, parecem não precisarem ouvir nossa voz. Mas que seria de nós, ou melhor, que seria de mim, se não falasse ou se não proferisse palavras? Estaria por desprezar o dom da voz, que os deuses me deram? Por isso quero falar, Apolo, que agradeço a vós, aqui e agora, mas estando de volta a Atenas e a minha casa, com meus amigos e discípulos, com minha mulher e com meus filhos, terei de me calar e me limitar a dizer que consegui a catarse de meus pesadelos, mas não direi como. Seus elogios e suas palavras são minhas; somente minhas e de mais ninguém. Por isso, Apolo, o que me disser e o que me aconselhar estará escondido e oculto do mundo, pois sei o apresso que tens pelo coração puro e que sabe guardar com sabedoria as palavras”.
“Certo Sócrates, entendes exatamente a minha essência, e é por isso que tu se encontras três níveis acima dos homens de sua época. Agora, conte-me o que lhe aflige”.

III

Sócrates detalhou seus sonhos.
“O que me preocupa, Apolo, não é a guerra eminente, nem ao menos o dinheiro, mas sim o futuro do mundo. Que serão das próximas gerações se nós continuarmos a nos reproduzir demasiadamente? Hoje está bem claro que a cidade precisa cada vez mais de homens e mulheres. Há muito trabalho a se fazer, ideias para se parir e males a combater, mas que será daqui a dois ou três mil anos?”
“Por que se preocupa tanto com os homens dos próximos milênios? Tu a muito já estará morto quando as cidades atingirem uma super população e não há maneiras de se reverter isso, é o curso natural da evolução”.
“Preocupa-me os filhos de meus filhos. Que serão deles? Além disso, há a lei da reminiscência, instruir é relembrar-se!”
“Sócrates, eles terão pena de ti, terão ranço de vossa época e dirão que vocês, os gregos, são antigos, tolos, demasiados mitológicos e antiquários. O próprio Oráculo de Delfos será desprezado porque as próximas e longínquas gerações não se importarão com os deuses. O crescimento da população será tão grande que muitos passarão fome. Mas não porque o mundo não dará conta de alimentar e de produzir alimento para todos, mas porque nem todos poderão pagar o preço para suportar a ganância dos ditos homens superiores. Daí tornar-se-ão criminosos, roubarão e matarão, e com alguma razão serão oprimidos em nome da paz e da segurança”.
“E isso é justo?” perguntou Sócrates.
“Na balança, há de um lado, o homem-vontade, que é aquele apto a se reproduzir, a crescer como animal e do outro lado, há a evolução social que é um reflexo do homem-vontade. Então, meu caro Sócrates, não é uma questão de justiça, mas sim de ‘apoditicidade’. Fique tranquilo, os sonhos ruins, lhe garanto, tu não os terás mais”.
“Na verdade, Apolo, o que gostaria mesmo era de entender os meus sonhos, ou se possível, ver mais do que já vi”.
“Tu não suportaria, além do mais, não há motivo para lhe conceder isso”.
“Apenas por um ou dois segundos. Suplico-te que me mostre e juro-lhe segredo eterno”.

IV

“Sócrates, como conheço sua procedência, como sei o que tu significará para os homens da posterioridade, permitirei que veja por alguns segundos. Mas prometa-me, além do segredo eterno, que não irá se perturbar por causa do que verá. Essa visão lhe fará um semi-deus, pois entre os homens vivos e já mortos, nenhum deles teve ou têm tal privilégio, e como sabes, o conhecimento muitas vezes pode ser um mal se não utilizado com responsabilidade”.
“Prometo que não sofrerei e que terei responsabilidade com o que verei Apolo. Sinto que sairei daqui outro homem, assim como das outras vezes que te visitei”.
“Portanto, Sócrates, deite-se”.
Deitado, Sócrates alucinou percebendo a pneuma virar fogo. Ele pode ver Nova York, São Paulo, Londres, pessoas pobres, guerras nucleares, holocaustos, celulares, armas de fogo, cadafalsos, prélios espirituais, epidemias, catástrofes naturais, e por fim, viu um homem sentando numa mesa e que escrevia sem parar. De súbito, encerrou a visão. Ele chorava lindas lágrimas, porém, não de alegria, mas sim de dúvidas. Dúvidas sobre a beleza obscura e trágica do futuro do mundo.
“Muitas coisas não entendi, Apolo, havia muito brilho em tudo, as cidades, as pessoas, os objetos! Mas acho que compreendi que parecem coisas feitas pelo homem, criadas e pensadas de formas inteligentes, lógicas e extremamente úteis! Muitas coisas pareceram-me promissoras, mas, como tu já havia me indicado, também pude ver uma parte terrível e é isso que me faz chorar. Vi a morte, a fome e a tirania. Mas, permita-me perguntar uma última coisa antes de partir. O que era o homem escrevendo? Por Zeus! Seria Zeus escrevendo a história do mundo?”
“Não, Sócrates. Não era Zeus, era apenas um homem comum e que escrevia sobre nós dois, aqui e agora, conversando e delirando em meio à pneuma deste Oráculo. Lembre-se que é por meio da farsa, do fingimento e da imitação do mal que o caos se desencadeia. Até a próxima meu caro amigo, sejais responsável com o que viu!”.

 Category: TEXTOS VARIADOS

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