ROMANCE FILOSÓFICO: SCHOPENHAUER NO BRASIL (PARTE II)

By Acervo Filosófico

Por: Antonio Alves

2- Irritabilidade, perseguição e uma lembrança sobre o velho Pitágoras 

“Não bastava ter voltado num cão, tinha de ter voltado no Brasil?”. Foi o primeiro pensamento que me assolou depois que acordei do desmaio. Não era fácil de crer que era o próprio filósofo. Não, talvez não o filósofo, mas uma energia cósmica que antes de ser o dito cujo, tinha sido outros ditos cujos. “Barbaridade”. E ainda havia outra pergunta para compreender, e nem era o fato de o bicho falar, mas sim que tenha falado justamente comigo, logo eu, que sou mero estudante do sujeito! 

Quando o cão-Schopenhauer falou, olhou-me nos olhos da mesma forma como olha nossa mãe quando fazemos algo de errado. O olhar era profundo e amedrontador e as pupilas brilhavam numa profundidade aterrorizante. Foi a primeira vez que vi um cão vira-lata com olhos azuis. Eis que me lembrei de imediato de uma das passagens do Mundo como vontade e como representação, onde se diz que os olhos em si são os únicos que não envelhecem, sendo possível perceber o mesmo caráter e identidade de uma pessoa independente de sua idade, ou seja, são os mesmos olhos que estão enfincados no crânio tanto na infância quanto na velhice. Assim, tive a vívida impressão de que os olhos que sempre observava nas fotos do homem-Schopenhauer agora pude ver pessoalmente num cão! 

Não me demorei e saí à sua procura. Incrivelmente a situação me causava não apenas medo, mas também uma espécie de alegria, uma estranheza sutil, afinal, eu estava indo procurar o cão que se apresentou a mim como o velho e ferrenho Schopenhauer, “ou eu deveria dar um pulinho num psiquiatra?”, pensei comigo mesmo…, “Provavelmente não faria mal”.

Mas esqueci a ideia do psiquiatra e segui em frente, pois, se o “mundo é minha representação”, podia confiar absolutamente naquilo que acabara de ver e ouvir. Ah, que irônico! A própria proposição máxima de abertura do mundo como vontade e como representação me convenceu de que de fato um cão havia trocado palavras comigo.

Uma coisa é certa: de representações não se pode duvidar, são como são. Por isso, ou o cão falava, ou eu louco estava. Não importa.

Trato agora de descrever a voz do sujeito: era rouca e medonha como se um demônio falasse de dentro de um guarda-roupa fechado, pois era de fato um espírito falando dentro de um corpo animalesco. Sim, sim, apenas mais um dia sob o sol onde demônios e deuses são concebidos numa fusão onírica, onde tudo é sonho. Bom, mas nem tudo é sonho já que tempo, espaço e causalidade não possuem início nem fim. Param-se as vidas e os relógios, os sonhos e os profanos, mas o tempo, esse invariavelmente prossegue do seu modo. Pergunto-me: o tempo é um conforto ou um desconforto? Caberiam a ele esses tolos atributos?

Mas sigamos, encontrei o cão onde devem-se procurar por cães, ou seja, nos bares do Brasil. A cena foi bastante clara, vi tudo o que narrei anteriormente: a gritaria no bar, os tiros dados na testa sem rancor, as mulheres desesperadas, as crianças brincando no sangue, o sofrimento humano bem ali, descarado, escancarado, até belo… totalmente latente e pulsante!

Mas a minha atenção não conseguia desprender mesmo era do cão-Schopenhauer que num só pulo de astúcia roubou um espeto de carne das mãos de um homem e depois correu até a esquina. Ali deitou-se, depois deleitou-se. Comeu como se eu não estivesse ali, como se não percebesse que era um cão que podia falar e que inclusive a pouquíssimos instantes havia falado comigo.

Sim, certamente tinha sido um surto de inteligência — isso no caso do cão — já que se o surto foi meu, certamente tinha sido de psicose, ou, não sei, alguma outra dessas tantas patologias que assolam a psique humana. Não sei o que houve de fato, mas sabia exatamente que não podia pedir opinião de ninguém. Isso porque os segredos absurdos, não devemos confiá-los nem aos amigos mais íntimos. Eles devem ser relatados nestas folhas, pois elas são as únicas amigas honestas e nelas posso confiar e expressar toda minha sinceridade sem me preocupar com o julgamento de outros bípedes.

(…) me lembrei logo de uma história conhecida sobre Pitágoras, filósofo antigo muito conhecido por sua matemática, mas que também era um partidário ferrenho da transmigração das almas.

Observei o cachorro por mais um tempo. Comeu a carne e a gordura, por fim lambeu o espeto. Depois deitou e aquietou-se por um tempo. Quis me aproximar, até ensaiei o movimento de andar até ele. Dei dois passos e voltei. Faltaram-me fôlego e coragem. Que falaria eu com um vira-lata? Além disso, próximo a ele havia tantos outros: marrons, pretos, brancos, manchados, sujos e fétidos. Nisso tive um pensamento lampejante: Schopenhauer andando com outras pessoas? Digo, com outros tantos cães? Sempre tive a impressão de que ele fosse solitário, não como se se entristecesse com a solidão, mas como um eterno companheiro da solitude. Seja como for, talvez o extinto animal que nele agora habita, ou melhor, o extinto animal que há no corpo que ele habita, faça com que partilhar dessas companhias igualmente insalubres seja benéfico para sua espécie, afinal é verdadeiro que a união faz a força.

Mas obviamente estou medindo a vida do outro pela minha própria régua. Isto é um fato, já porque como é sabido, o tal filósofo gostava à beça de cães. Sabe-se lá se não era cão antes de ser filósofo e vai saber lá o que era antes de ser cão e filósofo.

Continuei à espreita e sucedeu o seguinte: a polícia levou o assassino, e o corpo do homem morto logo também foi retirado. O dono do bar limpou o sangue com o mesmo pano que passava no balcão para limpar as marcas d’água feitas pelo suor dos copos de cerveja, e na sequência o forró voltou a todo vapor. Mas o que mais me interessou foi o seguinte: um tal de Zé das Tralhas correu para expulsar os cães.

— Andem, vão-se embora, lacaios! Sumam logo daqui!

Senti-me mal e me lembrei logo de uma história conhecida sobre Pitágoras, filósofo antigo muito conhecido por sua matemática, mas que também era um partidário ferrenho da transmigração das almas. A história conta que, num belo dia, Pitágoras passeava pelas ruas de Atenas, quando avistou um cão sendo castigado por um bípede, Pitágoras disse ao bípede: “Pare de bater, pois é a alma de um amigo que neste cão habita! Reconheci ao ouvir seus gemidos!”. 

No caso do ocorrido que vi, o senhor Zé das Tralhas não chegou a bater. Limitou-se aos gritos. Alguns cães não se dispersaram muito porque ainda continuavam à espreita para roubar uma carninha, já aqueles que, incluso o cão-Schopenhauer, estavam de barriga cheia, desceram a rua escura numa mistura de medo, galope e velocidade. Fui atrás do meu alvo. Segui-o mantendo uns trinta ou quarenta metros de distância. Virou uma esquina, virou outra, andou pela avenida, mijou em árvores, cagou na calçada, cheirou e investigou. Fiquei a observá-lo por dois quartos de hora. Pouco tempo, porém o suficiente para fazer sentir-me cão: andando sem rumo, esquivando-me por árvores e atravessando as ruas fora da faixa.

Sucedeu-se a irritabilidade: fui assolado por uma perseguição canina. O cão-Schopenhauer de súbito percebeu-se perseguido e seguido, daí virou-se para mim numa destreza absurda: latiu, rosnou e então, sem demora, começou a correr em minha direção. Paralisei sem saber o que fazer. Gelou-me até os fios de cabelo dos locais mais íntimos, o que aliás não poderia ser diferente, já que não é sempre que se é perseguido por um cão possuído pelo espírito de Arthur Schopenhauer em uma noturnal viela brasileira.  

 Category: TEXTOS VARIADOS

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