ROMANCE FILOSÓFICO: SCHOPENHAUER NO BRASIL (PARTE IV E V)

By Acervo Filosófico

Por: Antonio Alves

Capítulo IV

3 – Julgador e moralista? Eu não…, segredos de escurinho de igreja.

Há quanto tempo não entro numa igreja? Nem me lembrava como era. Não pude deixar de sentir que lá dentro havia o mesmo fedor da rua. Além disso, o cheiro da carne de terceira categoria que vinha do bar invadia o templo. Não havia ninguém na casa de Deus e o cão-Schopenhauer não se encontrava mais na minha vista. Tentei chamá-lo assoviando e estralando os dedos, nada aconteceu. De súbito parei porque me senti receoso por conta do eco e da estranheza contida no local: pouca luz, Jesus na cruz e a simbologia nas janelas. Anjos, mosaicos, castiçais e velas de todas as cores e tamanhos. Chamar por “Schopenhauer” num lugar assim parecia um tanto herético. Os anjos talvez pudessem me ouvir e possivelmente me admoestassem. Dizer “cachorro” também pareceria estranho, uma vez que não se sabe se igreja é lugar de animal. Uns dizem que sim, outros que não. Particularmente, preferia a imagem do bar, no entanto sentia-me mais seguro na igreja pelo simples fato de não haver outras pessoas, já que quanto menos pessoas, melhor. 

“De qualquer forma, tudo isso é Brasil. O bar, a igreja, as ruas. Nada de novo”, pensei.

Agachei tentando visualizar o cão por baixo dos bancos. Também nada. Na sequência, apareceu o padre junto com uma mulher. Os dois pareciam ter saído de uma porta num dos cantos do altar. Escutei-o dizendo palavras de consolo que ecoavam pelo local:

— Siga em frente, tudo ficará bem, basta continuar tendo fé no Senhor.

A mulher estava visivelmente emocionada, limpava o rosto e andava um tanto quanto cambaleante, no entanto continuava bela. Os seios eram fartos, os cabelos lisos e brilhantes. Não era nova, mas também não era velha. Parecia ter quarenta e poucos anos, a mesma idade do padre que usava batina preta e caminhava serenamente. Era como se detivesse um poder especial em relação aos outros mortais. Espécie de faraó sobre a terra.

Fiquei à espreita, calado e só observando. Sabia que não estava sendo percebido e isso me excitava. Por um instante, esqueci o cão-Schopenhauer. Sabia que ele não poderia estar muito longe, teria de aparecer. O padre continuava, enquanto colocava as mãos nas costas da moça:

— Não diga nada a ninguém e confie em Deus, apenas em Deus.

Ela respondeu só com a cabeça. Balançava afirmando que sim, enquanto desengasgava um soluço choroso. Daí o padre a abraçou. Mas não foi qualquer abraço. Estou certo do que vi, meus olhos e ouvidos nunca falham: as mãos do padre agarraram com força as nádegas pomposas da moça. Sim, ele roçou nela. Nessa hora minha alma sorriu. Um padre humano e imoral. Imoral? Imoral para quem? Não para mim. Apenas expressei pequeno sorriso de canto de boca, sim, era cena linda de se ver, fiquei ainda mais excitado e partidário das intenções das mãos do padre. Queria de fato que elas não parassem e que fossem ao máximo fundo em sua motivação, mas logo fui assolado pela sensação de ser um maníaco voyeurista. Queria sair dali, mas não conseguia, a cena era demasiado excêntrica para não ser aproveitada. Devo ser sincero sempre.

Daí o mais surpreendente: o padre beijou a moça. Com certeza, aquele não era o primeiro beijo deles, porque analisando friamente ele até pareceu meio chocho, já que foi dado entre as lágrimas da mulher. Um beijo salgado mesclado com sofrimento feminino e prazer masculino. Coisa horrível e maculosa de se ver, porém ainda era uma representação de um padre usando batina beijando uma beata. Ela parecia indiferente, como se estivesse se deixando levar. Ele inevitavelmente me expressou uma imagem de abusador, já que beijar uma moça chorando pareceu-me bastante estranho. Ainda sinto culpa de ter ficado excitado por ter visto aquilo, mas devo buscar perdoar-me em vista do espírito masculino feroz que em mim habita. Não, não foi minha culpa, não foi caso de ter procurado o prazer. Faço minha defesa para mim mesmo: eu apenas estava no lugar errado na hora errada.

“Faço minha defesa para mim mesmo: eu apenas estava no lugar errado na hora errada”.

O padre e a beata foram interrompidos pelo latido do cão-Schopenhauer. Eu, de súbito, não pude deixar de sair do meu transe excitante, reflexivo e observador, expressando minha alegria:

 — Você está aí, Schopenhauer!

Logo em seguida me veio aquela estranha sensação de que não se pode falar numa igreja vazia, principalmente quando se acaba de ver um padre beijando uma moça. Percebi que o padre a soltou assustado. Fiz de conta que não estava vendo, como se tivesse acabado de chegar. A moça arrumou o vestido, saiu em disparada e em passos rápidos cortou a igreja num minuto, até sua tristeza parecia ter ido embora.

— O cachorro é seu? Perguntou-me o padre.

— Sim, respondi.

— Tenho a impressão de que já o vi aqui outra vezes…

Nisso eu senti claramente o seu tom de admoestação, como se quisesse dizer: “Cuide melhor do seu cão, porque ele está entrando demais na Santíssima Casa de Deus!”. Por conta disso, não tive disposição de explicar-lhe que o cão era meu apenas há alguns minutos, até porque julguei que ele não entenderia. Mas para minha surpresa e também para completar os revezes daquela simples quinta-feira, fui surpreendido mais uma vez:

— Você chamou o cachorro de Schopenhauer ou ouvi mal?

Minhas orelhas ficaram em pé. Meus olhos se arregalaram e nisso o cão-Schopenhauer me olhava atento como se me dissesse:  “Você ouviu o que ele falou? Você ouviu o que ele falou?”.

Capítulo V

Confissões

Minha tese de que as igrejas são locais com tanta filosofia quanto os bares estava grandemente correta. O padre explicou-me que em sua formação teológica havia estudado os filósofos ateus: Nietzsche, Schopenhauer, Camus, Bauman e outros. Eu, feliz com a constelação de filósofos expressa por ele, num impulso respondi, esquecendo-me completamente de que estava falando com um padre:

— Muito bom, já que filósofos que não são ateus nem valem a pena ser lidos.

— Então você acha que não se deve ler Kant? Respondeu ele, como se quisesse entrar no meu jogo e dando um belo tapa na minha cara.

— Bem… Kant é uma dessas raras exceções, e também é sabido que para ele não precisamos de Deus para sermos bons agentes morais.

Disso discorreu que o padre, apesar de suas limitações, não se fazia de modo algum um grande castrador de pensamento. Ele me contou dos seus estudos de teologia, falou dos livros que leu, dos que estava lendo, dos que iria ler e dos que jamais leria. Particularmente, marcaram-me mais aqueles que ele disse que jamais leria: todos os livros de Marx, com ênfase no Manifesto Comunista, o qual ele julgou ser uma perversão contra a ordem moral humana, e a Origem das Espécies, no qual, segundo o padre, Darwin teria se utilizado de uma falsa ciência para conquistar fama pessoal.

— Não deveria fechar horizontes padre, leia-os por ler, mesmo que não concorde. Para mim, você tem medo de ser influenciado e querer deixar a batina…, de perceber que toda sua vida foi um erro e que Deus não existe e nunca existiu.

— Já sou por demais livre dentro do meu ofício permitindo essa conversa na presença do altar de Cristo — ele falou olhando para o cão, como se quisesse dizer que também permitia que cães entrassem em igreja, e continuou: já sou por demais bondoso em ouvir as coisas que você fala sem entrar em estado de cólera. Não faço diferença entre pessoas, gosto de conversar com gente como você, pois assim tenho a chance de convertê-lo.

— Sei bem a espécie de padre que é você.

“Estava de fato disposto a pagar o preço por trair a Deus”.

Falei justamente pensando no beijo que há pouco o havia visto dar na mulher. Estava determinado a contar-lhe o que vi, não porque queria colocá-lo em saia justa ou ameaçar contar para outras pessoas, até porque não conheço muitas pessoas que frequentam a igreja. Na verdade, queria contar porque precisava me sentir superior, dizer que sabia mais da vida dele do que ele podia imaginar.

— E que espécie de padre eu sou?

— Do tipo que se relaciona amorosamente com fiéis. Vi você beijando e pegando na bunda de uma moça agorinha. 

Vermelhando-se dos pés à cabeça e percebendo que eu havia visto a cena que há pouco ocorrera, o padre começou a gaguejar. Não sabia o que dizer e me implorou segredo.

— Não se preocupe, eu não ligo, apenas nunca mais me considere um possível fiel de sua paróquia. Não tente me converter. 

Depois disso, fiz um movimento de que iria embora, mas ele me segurou pelo braço e me impediu. Fez questão de me contar toda a história que tinha com a moça. Ela tinha dois filhos e há dois anos havia ficado viúva. Compadecido com a solidão da mulher, certo dia fez-lhe mais carinho do que deveria e ela o beijou, e desde então passaram-se os ditos dois anos e eles estavam juntos às escondidas. O padre havia se convencido de que mais valia ajudar a mulher a superar a perda do marido do que mandá-la embora, sob o pretexto de que padres não podem ter relações sexuais.                                                             

“Eis aí a prova de que a Vontade não pode ser moralizada”, pensei. Ele prosseguiu:

— Confesso que senti uma enorme culpa quando começamos a nos relacionar, mas aos poucos passou. No fundo, estou determinado a escrever sobre o grande erro acerca de padres não poderem ter família e filhos.

Ele prosseguiu, explicando por que a mulher estava triste e chorona: ela queria que ele largasse a igreja e mudasse de cidade, vida nova, lugar novo. Tudo do zero junto com ela. Ele relutava em aceitar por conta de a moça já ter filhos, e que se não fosse isso, provavelmente aceitaria. Estava de fato disposto a pagar o preço por trair a Deus.

Diante da complexidade da situação, percebi que jamais havia conhecido um padre tão bom e humano. Ainda que ele não fosse meu amigo de longa data, senti-me confortável ao seu lado. Ele sabia das minhas propensões filosóficas, do meu ateísmo, e eu sabia dos seus segredos mais íntimos. Era impossível que não continuássemos a nos relacionar.

Queria ter um segredo à altura dos segredos dele, por isso decidi lhe confiar o meu mais íntimo: coloquei minhas mãos ao lado da minha boca, visando tapar a visão do cão-Schopenhauer, que o tempo todo nos rodeava, e disse baixinho:

— Padre, padre, estou com problema… hoje ouvi esse cachorro falando comigo…

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