ROMANCE FILOSÓFICO: SCHOPENHAUER NO BRASIL

By Acervo Filosófico

Por: Antonio Alves

1- Tiros, filhos e cães. O inferno é a Terra

Baralho e gritaria: pessoas reunidas no bar da esquina. Um reclamava da cerveja quente, outro contava uma mentira de rio. O tamanho do peixe, a barranca desmoronando, o homem que pulou da ponte na semana passada e deu com a cabeça direto numa pedra, os pescadores que por ali passavam e o retiraram da água ainda vivo, porém vomitando sangue e com os olhos saltados para fora da cabeça. Sim, não demorou a morrer, como era o esperado.

— Casos de tirar a própria vida, meu caro, na ponte do Piquiri acontece um a cada seis meses, falou um homem para outro que ouvia de soslaio e parecia não estar inteirado do assunto sobre o qual todos já estavam cansados de fofocar.

O dono do bar, como de praxe, era também sempre o mais bêbado. Entornava doses de pinga para fazer companhia do primeiro ao último freguês. Sabe-se lá como aguentava tanta pressão nos rins, estes eram grandes heróis que não conheciam nem domingo e nem dia santo. E assim também era o bar, pois não conhecia feriados patrióticos ou comemorações religiosas. O mais impressionante é que a Igreja era logo em frente. Aí pergunto-me se isso é coisa do Brasil ou se no restante do mundo também é assim, digo…, o fato de sempre na porta de uma igreja haver um bar, ou seria melhor dizer que na porta de um bar sempre há uma igreja? A lamúria dita o tamanho dessas tolas concepções, já que não faz tanta diferença um templo do outro: enquanto em um se adora Deus, no outro se adora o Diabo, no caso, na igreja se adora o Diabo e no bar se adora Deus. 

(…) A regra geral é que de fato onde houver pessoas haverá discórdia. (imagem: Manet – fonte: https://www.overstockart.com/painting/cafe-concert).

Ai, ai, mas não é vero o fato de que há quem diga que Deus e o Diabo pouco se distinguem? Que importa se um venera a pinga e o outro o vinho? Se um levanta as mãos aos céus e o outro grita porque quer subir a aposta no baralho? A igreja carrega um peso platônico, o bar já é um tanto aristotélico. Num exalta-se a espiritualidade, noutro a mundanidade, no entanto, o que há de inquestionável nisso tudo é que há tanta filosofia num bar quanto numa igreja. Os dois ambientes são carregados de loucura e de frenesi. Num se enrola a língua por beber demais, noutro se fala em línguas por ter muita fé.

Na igreja, um morto com semblante europeu está no altar e pregado numa cruz e ninguém lá dentro se dá conta do tamanho da bizarrice disso. Nesse local não se pede licença para roubar, é roubado de bom grado. No bar a situação é outra, a imagem bizarra é o balcão de bebidas que, assim como a imagem do morto pregado na cruz, nada promete além de loucura e alguns instantes de tiragem desta mórbida realidade que tanto nos assola. Com efeito, no bar ao menos se pede licença para roubar. Ninguém está lá por conta de uma construção moral milenar, mas sim por mero desvio dos sofrimentos do mundo; de fato, é uma escolha mais consciente: percebo minha miséria e vou para o bar; no caso da igreja, percebo que preciso ser salvo, percebo, portanto que, por ser demasiado agarrado a essa existência pavorosa, tenho de mantê-la eternamente, talvez por conceber que no futuro estarei numa nuvem de prazeres ao lado de um velho barbudo. Bizarro.

Mas é tudo tolice, já que o bar está no mundo tanto quanto a igreja, portanto, é apenas mais um local em que se vende sofrimento. Isso vale também para a casa, para o local de trabalho, para os parques e praças, cada qual distribui um pedacinho de dor. São apenas graus diferentes de se entendê-la. A regra geral é que de fato onde houver pessoas haverá discórdia. A moral é o próprio mal e o bem talvez seja a própria não-moral, digo isso pois quem precisa de motivos para ser bom já se tornou mal sem perceber. Basta refletir.

Não importa, eis que nossa casa é o mundo e qualquer lugar é suficientemente bom para sermos assolados por tudo que não queremos. Não pretendo chamar essa coisa irracional de acaso, já que acaso é um mero nome que damos para aquilo que não sabemos como explicar. Chamarei isso de Vontade. Eis que é ela a musa do bar e da igreja. Da casa, da panela, da comida sobre a mesa e também a mãe de todos os deuses e santos. É a promotora dos sonhos mais profundos e inconscientes e também da infeliz e tosca sentinela.

Mas, voltemos ao bar, pois nele houve uma história que vale a pena ser contada, é por demasiado inusitada e possui relevância didática, justamente por isso não deve ser dispensada. Elevêmo-la, pois, a um pedestal. Portanto, eis o que houve: o furdunço se deu numa tarde logo após o fantástico dia 12 de outubro, aquele que nunca se sabe se é dia das crianças ou dia da santa preta. Dum lado da espelunca havia a máquina de música, nela tocava-se forró e arrasta-pé: o melhor tipo de ritmo para embalar o cérebro irrigado com bebida barata. Mulheres dançavam enquanto as crianças corriam. Havia bebê de colo, que por acaso não estava no colo, mas num cercadinho. Havia criança pequena correndo em volta das mesas e mães a beber enquanto cuidavam de longe dos maridos e simultaneamente falavam mal umas das outras. A baderna comia solta. 

(…) O espeto, a igreja, o cheiro de inferno e a dor do mundo, mas…, ao fundo dessa imagem quase que alucinatória: Schopenhauer. Fonte da imagem: http://globedia.com/de-bar-a-bar-y-no-trabajar

Do outro lado do bar a cena era ainda mais curiosa: havia as mesas de baralho rodeadas de velhos malacos que berravam sem parar. Na calçada um homem fazia e ao mesmo tempo vendia espetinhos de coxão mole que mesclavam entre um pedaço de carne, outro de gordura, um de carne, outro de gordura…, já a pequena churrasqueira de lata deixava o lugar quente e infernal, pois o vento que batia do leste levava todo o calor para dentro do bar. Ao lado, enormes cães aguardavam a oportunidade para roubar carne de alguém com atenção aérea.

— Baixou a mão, perdeu! Baixou a mão, o cachorro comeu. Tu nunca aprende, Zé?

Dessa vez não deu tempo de Zé retrucar e nem de reprimir o mesmo cão que sempre lhe roubava o espeto, porque de dentro do bar ouviu-se uma gritaria ainda mais caótica do que o comum, logo em seguida, três tiros. Todos foram na cabeça. A vítima deu de cara na mesa e o sangue escorreu pela cadeira e consequentemente pelo chão. Morreu e nem viu como. Já o atirador tentou correr, mas de tão bêbado caiu.

Aqueles em que ainda restavam uma gota de sanidade e sobriedade na cabeça se colocaram a segurar o assassino e levaram-no para fora do bar. As mulheres gritavam sem parar: a esposa do morto sem demora desmaiou, a do atirador tentava agarrar seu filho e correr.

A movimentação foi incessante, da porta da igreja apareceu o padre e alguns coroinhas, das laterais da rua os vizinhos colocaram as cabeças pela janela, havia curiosos de todos os lados e de todas as índoles — eu, inclusive. De modo geral, tudo ali parecia diferente, menos a música, esta continuava a tocar sem parar e sem diminuir: insuportável, ambiente hostil, Brasil!

E eis que mesmo no caos total alguns até conseguiam continuar dançando em volta da churrasqueira como se nada houvesse acontecido. O morto era mero pano de fundo. Mas a cena curiosa que de certa forma fez com que a moralidade tomasse pequeno espaço daquele povo-de-bar foi que, sobre todo aquele pequeno inferno, o filho do morto juntamente com o filho do assassino começaram a brincar ao lado do corpo morto.

— Incrível, Zé, aquele ali acabou de perder o pai e nem se deu conta.

— Dizem que estavam dando pinga para o menino. Deve estar bebum como nós.

— Sei não, acho que criança não sabe bem o que que é morrer.

— Pode ser, talvez…

Não tardou a polícia chegou. Levou o assassino para o camburão. A mulher, agora esposa de presidiário, acompanhou. No mesmo instante chegou também o IML e levou o morto. A mulher deste, aos prantos, em tremedeira e agora viúva, acompanhou. Os filhos dos respectivos envolvidos na confusão, ou seja, o do morto e o do prisioneiro, despediram-se até com abraço, ficaram de fato amigos. Um recém-órfão de pai e outro agora com pai penitenciário. Nada de novo sobre a terra do sol, já que é bem conhecido o fato de crianças terem sido sempre incríveis em todas as épocas.

Do outro lado da rua — ao menos para mim — uma cena ainda mais inusitada acontecia: o cão ladrão de espetos, sim, justamente aquele que sempre assaltava o bobalhão do Zé das Tralhas; nele habitava um espírito. Era Schopenhauer. Renasceu no Brasil, num vira-lata e numa dessas cidades obscuras de que ninguém sabe o nome, mas de certo modo todos sabem o que nelas acontece. E, sim, talvez isso seja mera desculpa para não dizer onde moro, já que isso pouco importa, basta saber que se trata do Brasil e que considero que há algo apriorístico no espírito do povo brasileiro e que vai do Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul, a saber, trata-se da desordem e do apreço pelo caos. Nada amamos mais do que essas coisas.

E a cena toda que descrevi acima dá conta exatamente disso, ou seja, de descrever um pouco do caos e do pânico brasileiro. O espeto, a igreja, o cheiro de inferno e a dor do mundo, mas…, ao fundo dessa imagem quase que alucinatória: Schopenhauer. Mero cachorro vira-lata marrom, magricelo, esperto e virtuoso. Que espírito, que espírito! Vejamos suas aventuras. Pergunto-me: que será de um cão contendo um espírito tão nobre vivendo no meio de homens tão rudes como nós?

Finalizo falando direto e aberto com o leitor que deve estar a se perguntar sobre como eu, mero escritor de quartas-feiras, possa saber sobre o paradeiro do espírito de um alemão morto em 1860. A resposta é a seguinte: o bicho falou comigo, olhou no meu olho e quebrou toda a regra das abstrações e da linguagem, sim, aquela da segunda raiz do princípio de razão.

Pois é, evoluiu-se um degrau na espécie e confirmou-se todas aquelas convicções anteriormente consideradas meras utopias absurdas. Sim, um cachorro pode falar e falou comigo, ele simplesmente me olhou e disse:

— Sou Schopenhauer e estou preso aqui dentro. Liberte-me! 

Depois o bicho correu e eu desmaiei. Desconfio de ter sido mero sonho, mas não sou de sonhar, portanto, acreditem em mim, dou fé, assino em baixo. És uma veritatis occultae!  

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