SCHOPENHAUER EM FRANKFURT:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, todo o universo conspira a seu favor”.J.W. Goethe.

Em outubro de 2017, estive na Alemanha visitando uma querida amiga que mora no país há cerca de dois anos e meio. Durante minha passagem pelas terras germânicas, visitei a cidade de Frankfurt, na qual passei três noites, do dia 20 ao 23. Ao longo desse período de tempo em que fiquei por lá, fiz uma maratona de passeios especialmente voltada a locais relacionados ao filósofo Arthur Schopenhauer, que viveu parte de sua vida nessa referida cidade. Abaixo, você confere meu relatório de viagem no qual encontram-se disponíveis informações gerais sobre o passeio (endereços e horários) e algumas imagens que, certamente, serão valiosas para os admiradores do filósofo.

                             Gutes lesen! 

SCHOPENHAUER EM FRANKFURT: 

Frankfurt é o verdadeiro centro da Europa. Aqui em Frankfurt, chegam tudo e todos. Podese ver e ouvir tudo o que se passa através do mundo“.

(Schopenhauer-Jahrbuch, publicado por Paul Deussen et alii, Frankfurt-am-Main, Edição de 1968, o.112. Apud. Rüdiger Safranski, em: Schopenhauer e os Anos Mais Selvagens da Filosofia).

Frankfurt foi uma cidade especial na vida de Arthur Schopenhauer. O pensador alemão viveu no local de 1833 a 1860, ano em que faleceu aos 72 anos.

Desde a estadia de Schopenhauer em Frankfurt, muitos fatos importantes ocorreram em sua vida. Em 1986, foi publicado o livro “Sobre a Vontade na Natureza”. Três anos mais tarde, recebeu um prêmio da Sociedade Norueguesa de Ciências de Drontheim por seu texto. No ano seguinte, foi novamente premiado, dessa vez, pela dissertação “Sobre o Fundamento da Moral”. Em 1844, publicou a segunda parte de sua obra magna, “O Mundo Como Vontade e Representação”. Em 1851, foi publicado o livro “Parerga e Paralipomena” que rendeu bastante notoriedade ao filósofo. A partir de então, Arthur Schopenhauer tornou-se cada vez mais popular e suas obras, gradualmente, tornaram-se valorizadas e conhecidas por toda a Europa.

De acordo com as pesquisas e registros por Safranski, a rotina de Schopenhauer em Frankfurt era a seguinte: as três primeiras horas de seu dia eram decidias à produção de texto (pois seu cérebro funcionava melhor nesse período). Posteriormente, passava uma hora tocando flauta, geralmente Rossini. Costumava almoçar fora e tinha o hábito de frequentar especialmente três restaurantes. Incialmente, o filósofo costumava ir ao Zum Schwan e ao Russischen Hof. Alguns anos mais tarde, passou a aparecer regularmente no Englischen Hof. Na época em que frequentava o último restaurante citado, após as refeições, dirigia-se ao Casino-Gesellschaft (uma sala de leitura próxima do Mercado dos Cavalos). Depois de tal atividade, sua rotina seguia: “Após a leitura de seus jornais, saía todos os dias para dar um longo passeio pelas ruas da cidade, com um passo rápido, embora não tivesse objetivo fico, chovesse ou fizesse sol, sem se importar com as condições do tempo e acompanhado por seu cãozinho Pudel, com quem conversava, embora parecesse mais que estava mantendo um monólogo em voz alta; sem dar a mínima para os transeuntes que passassem a seu lado ou para as pessoas paradas nas calçadas”. (2012, p. 530). Em seus primeiros anos em Frankfurt, também foi frequentador assíduo de peças de teatro, óperas e concertos. 

Além do referido filósofo, também é válido mencionar que outras grandes personalidades tal como Goethe e Theodor Adorno viveram na mesma cidade, e produziram uma importante parcela de suas obras no local. 

TÚMULO DE SCHOPENHAUER: 

No dia 21 de outubro, no período da manhã, eu e um casal de amigos fomos visitar o túmulo de Arthur Schopenhauer (Túmulo A-24), no cemitério Hauptfriedhof,

Túmulo de Arthur Schopenhauer, no cemitério Hauptfriedhof, em Frankfurt (arquivo pessoal).

É fácil encontrar o local. Basta entrar no cemitério pelo portão principal e virar à esquerda. Seguindo tal direção, logo se avistará uma placa verde à esquerda, com a inscrição “Schopenhauer – Grab” (grab=túmulo). O local em que o filósofo está sepultado é cercado por uma delicada plantação verdejante e baixa, e a cripta é bem discreta, contendo apenas a inscrição “Arthur Schopenhauer”. Constantemente encontram-se cartas e flores depositadas por admiradores e visitantes. Fiquei parada na frente do túmulo durante aproximadamente 30 minutos, tempo este que usei para meditar sobre o pensamento schopenhaueriano e contemplar o cemitério, que é muito belo e incrivelmente preservado. Há também outros túmulos de personalidades notáveis, tal como Theodor Adorno (1903-1969), cuja localização é K-119 e o psiquiatra Alois Alzheimer, que descobriu a doença de Alzheimer, em J-44a. Caso haja interesse para visita ao local, o endereço é: Eckenheimer Landstraße 190, 60320 Frankfurt am Main. 

BUSTO DE SCHOPENAHUER:

Juliana Vannucchi visitando o busto de Arthur Schopenhauer (Frankfurt, Alemanha, 2017).

Busto de Schopenhauer, em Frankfurt. Moldado em  1895 (arquivo pessoal – Juliana Vannucchi).

O busto de Schopenhauer foi moldado em 1895, por Friedrich Schierholz e exposto no dia 5 de junho do mesmo ano, em memória ao dia do falecimento do filósofo. Encontra-se num parque chamado Obermainanlage, que se localiza na região central de Frankfurt.

É uma escultura muito bonita. Além da beleza da peça, o parque na qual a obra se encontra é um ambiente bastante agradável. Vale muito a pena passar por lá. O endereço é: Obermainanlage, 14, 60314 – Frankfurt am Main. (GPS 50.110983,8.693760).

SCHOPENHAUER ARCHIVE: 

Na segunda-feira, dia 23 de outubro, visitei a Universitätsbibliothek, que é uma biblioteca vinculada à Goethe Universitä, uma das mais importantes instituições de ensino superior da Alemanha. Na referida biblioteca há uma sala de arquivos sobre Schopenhauer. Eu havia passado no local no dia anterior, que era um domingo, e fui informada de que para entrar numa sala chamada “Archivzentrum” (ou “Schopenhauer-Archive”) era necessário realizar um agendamento com certa antecedência. Assim sendo, no início da manhã de segunda-feira, Heino Pichol, o marido da amiga que fui visitar,  que é alemão (e quem sou muito grata), telefonou no local para marcar meu horário. Fui recebida por um senhor chamado Herr Röper, pontualmente, às 13h00 do mesmo dia. A visita foi gratuita e o guia forneceu explicações em inglês sendo este um fator bastante positivo, por possibilitar que os visitantes que não leem/ou falam alemão, possam compreender de outra maneira as informações dispostas em cada parte da sala. 

Há um tempo atrás, lá ficavam expostos inúmeros objetos pessoais que pertenceram ao filósofo (tal como óculos, flautas, etc) e alguns documentos referentes à sua trajetória. Contudo, atualmente encontram-se no local apenas cópias de tais objetos e documentos, com exceção de um sofá, que é o móvel original no qual Arthur Schopenhauer faleceu no ano de 1860, em Frankfurt. Uma ressalva válida: o estofado de tal móvel foi trocado por questão de conservação, mas a estrutura de madeira está intacta e é emocionante ter a oportunidade de vê-lo. Além desta mobília, todos os itens originais existentes encontram-se armazenados e preservados pela “Schopenhauer Society” e não estão disponíveis para visita pública. Nas paredes do Archivzentrum, vemos inúmeros quadros (pelo menos uns 20) pendurados. Eles foram pintados ao longo da vida do pensador e também postumamente (alguns, inclusive, são bem atuais), sendo que todos são as telas originais das quais muito frequentemente se encontram cópias na internet e também em livros. 

Alguns minutos antes de me retirar desse incrível aposento, deparei-me com dois livros informativos que estavam  disponíveis para venda, cada um por cinco euros. Ambos consistem em compilações fotográficas e informativas sobre todos os itens e fotografias oficialmente catalogados. Um possui apenas gravuras de Schopenhauer, sendo muitas delas as mesmas dos quadros que encontram-se dispostos nas paredes da sala, conforme citado acima, mas havendo também várias outras originais (várias delas, nunca encontrei na internet). O outro livreto, conforme esclarecido, é também um catálogo, embora este seja referente aos objetos pertencentes ao filósofo. Valeu muito a pena comprá-los são muito bem elaborados graficamente e possuem legendas bem esclarecedoras (embora estejam em alemão). Peças um tanto raras e imensamente valiosas!  

Uma informação interessante fornecida pelo guia do local, é que Schopenhauer viveu em várias casas diferentes em Frankfurt (pelo menos cinco endereços) e, infelizmente, nenhuma delas foi preservada. Ele esclareceu que por se localizarem na região central, ao longo do tempo, foram reformadas e tornaram-se pontos comerciais – uma delas, por exemplo, atualmente é uma loja, e a outra é um hotel. Assim sendo, decidi que não valeria a pena procurá-las, pois penso que não iria agregar muita coisa fotografar e/ou visitar prédios comerciais. De qualquer forma, caso interesse aos leitores, sei três endereços (foram os três que pesquisei enquanto estive por lá): Frankfurt a.M., Saalgasse 23 (1833-1836); Frankfurt a.M., Am Schneidwall 10 (1836-1849) e Schöne Aussicht 16 (sendo este último o local em que o pensador faleceu). Além disso, a seguir, com base na obra biográfica  “Schopenhauer e os Anos Mais Selvagens da Filosofia”, escrita por Rüdiger Safranski, seguem alguns dos endereços em que Schopenhauer viveu durante sua passagem por Frankfurt: Alten Schlesinger Gasse, na Schneidwall (Rua da Corte da Muralha, nas proximidades do rio Main); Neuen Main-zerstrwbe (Rua Nova do rio Main); Hangende Hand Haus e Schöne Aussicht, 16, perto da esquina com a Fahrgasse.

                      Archivzentrum – Schopenhauer Archiv.

O Sr. Röper contou muitas histórias e informações interessantes sobre o filósofo. Infelizmente, não me recordo de todas, já que a visita foi relativamente longa e (felizmente) recebi muitas informações diferentes. Recordo-me, no entanto, de três fatos curiosos, dois deles foram relativos a crises de insatisfação do filósofo em relação à pinturas feitas com sua imagem. Certa vez, teria reclamado que o retrataram com cabelos avermelhados, sendo que ele era loiro. Em outra ocasião, inquietou-se com uma imagem na qual estaria com “cara de sapo” (sim, com cara de sapo, rsrs). Um fato interessante que Röper destacou, foi o intenso romance entre Schopenhauer e Caroline Medon (que aconteceu durante o período em que o pensador residiu em Berlim). Quando Arthur decidiu deixar a cidade e migrar para Frankfurt, disse à companheira que gostaria que ela o acompanhasse, mas que para tal, a mulher precisaria deixar seu filho de três anos (de outro relacionamento) para trás. Ela se recusou e parece que Schopenhauer ficou bastante desapontado. Além desses fatos aqui citados, Röper  contou algumas coisas que já eram de meu conhecimento, pois são informações que podem ser encontradas em livros e até mesmo em alguns sites da internet (como, por exemplo, a série de viagens que o pensador fez durante sua juventude e que foram cruciais para que o jovem percebesse a miséria da condição humana e decidisse, de uma vez por todas, que gostaria de dedicar-se ao estudo da filosofia, abandonando as pretensões do pai de seguir a carreira de comerciante).

O Schopenhauer Archive, em suma, é uma espécie de museu, cuja relevância é imensa para qualquer um que se interesse pela vida e/ou obra de Arthur Schopenhauer. É um local discreto e não há muita divulgação e nem informação a respeito, mas, conforme citado anteriormente, para quem aprecia o legado do filósofo, vale muito a pena conhecer e a visita é uma experiência enriquecedora, tanto intelectual, quanto espiritualmente!

Agradecimento especial:

   Agradeço imensamente pela atenção, apoio e consideração cedida por meus amigos Cássia e Heino Pichol durante minha passagem pela Alemanha e também posteriormente. Sem vocês, esses grandes sonhos jamais teriam se concretizado: “O que passou, passou, mas o que passou luzindo, resplandecerá para sempre.” – J.W. Goethe.

Referências bibliográficas:

SCHOPENHAUER, Arthur. A Metafísica do Belo. São Paulo: UNESP, 2001. 

SCHOPENHAUER, O Mundo Como Vontade Como e Representação. São Paulo: UNESP, 2015. Tradução, apresentação notas e índices de Jair Barboza.

RUDIGER, Safranski. Schopenhauer e os Anos Mais Selvagens da Filosofia. São Paulo: Geração Editorial, 2011.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario.  In: História da Filosofia. São Paulo: Paulus, 2004. (Coleção Filosofia, volume 5). Tradução de Ivo Storniolo.

SCHOPENHAUER, Arthur. As Dores do Mundo.  São Paulo:  EDIPRO, 2014. Tradução de: José Souza de Oliveira.

 

 

 

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